9.12.08

debaixo da mesma mesa,
sempre os mesmos pés
.. sobre nossas cabeças
ressaca #9

matar uma barata e acender um cigarro
não quero mais um amor maquiavélico
perdí alguma coisa por aqui e até agora
nada que me entenda neste momento..

3.12.08

pouco por nada

e eu ainda não sei dizer
quando perdi tatas palavras pelo caminho
perdí ainda
cinco léguas de pares de meias
e andei descalço por sete quilômetros e meio
pensando em todas as besterias
que eu ainda nunca pensei
pensei que era tarde
e ficou mais tarde ainda
fiz uma canção de amor, ninguém me ouviu e esqueci

os mesmos erros

a quem falo palavras por mim
como se eu não quisesse dizer
deixo perder de vista a estrada
deixando um qualquer aspecto
esquecer, sonhar e nada mais
sonhar, acordar e adormecer
embreagado, dormir e sonhar
e dormir e sonhar, esquecer..

amor, amor..
palavra gasta
não sei dizer

prevêm qualquer gesto que eu pense em fazer/
diga agora onde estava as palavras que eu perdi

2.12.08

não sei esperar tanto tempo assim..

andar caminhos longos, esquecer do que estava pensando antes,
perder-se no caminho, deixar pra depois deixar os passos para trás,
desarmar-se para quem se ama e dispensar o caminho mais fácil.
toda certeza que eu tinha era a de que nada poderia ser por acaso.
que se me vissem no caminho nem eu saberia informar pra onde ia
decerto estava tonto, ter tentado tantas vezes me iludir, pra não ver
ou talvez um pouco de loucura ficaria bem se com uma dose a mais.
sem você me sinto mal. e nem sei porque eu preferisse um remédio.
preferia doer todas as cicatrizes novamente como pensava de antes.
fosse a primeira vez, a minha espera, não teria tanto tempo a perder
e não teria perdido toda a paciência pra viver depois, depois e depois.
e se talvez distante/nada agora. amanhã, amanhã e depois de amanhã


..















venus, júpiter e a lua

1.12.08


"se eu não tivesse o mundo inteiro dentro de mim,
ficaria cego quando abrisse os olhos." - Goethe






26.11.08

24.11.08

"A cavalaria lançou-se contra os índios
Os índios foram mortos e o país era feliz porque
Deus estava de seu lado.
Depois veio a guerra mundial e jamais se soube porquê mas
Deus ainda estava de nosso lado.
Depois veio a Segunda Guerra
e os alemães mataram milhões de pessoas.
Mas nós agora somos amigos dos alemães porque
Deus está do lado deles.
E agora vamos para outra guerra, pois
Deus está de nosso lado".

- Bob Dylan

14.11.08























Poema nos meus 43 anos
Charles Bukowski
Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida —
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.

... de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...

e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.

13.11.08







































































Imagens de Chantal Michel

7.11.08

Cabelo Azul
música e letra: Wagner Black

Você me diz que eu sou vadio
que eu sou muito vagabundo
e que o meu cabelo é azul

você me corta toda hora
você me tira da jogada
baby o nosso amor está no fim

se o meu cabelo é azul você não tem nada com isso
baby o nosso amor está no fim..


você me diz não tem nada a ver
o nosso mundo sou eu e você
então ok vê se não é isso
então faça o favor de não me esquecer
nomade valsa

quase doença
quase não tem cura
quase sem coragem
quase sem coração

quase eu
completamente são
desmaiava em vão
deixado de lado
deitado no chão
o último fim

seja menos você ao menos uma vez na vida
passamos perto do planeta
você deixou de olhar pela janela
esqueça, deixe cair ou perca-se de vez

24.10.08

revolução e sobremesa

uma vaga lembrança,
a idéia de como deveria ser
e um sorriso no final sem resposta

22.10.08


















provavelmente deus não existe
então não perca tempo e vá aproveitar a vida..

16.10.08

conselhos ..


Durkhein morreu de causas naturais, era autor de O Suicídio..

Dave Freeman autor de Cem coisas para fazer antes de morrer não plantou uma árvore..

o escritor e sociólogo suíço Jean Ziegler dizia: "se vir um banqueiro suíço se atirar da janela, atire-se logo atrás também porque deve ser um bom negócio"

15.10.08

Franz Ferdinand

ao poeta

vá à cozinha e me traga um copo de água
nada melhor quando não se quer beber nada
e não me venha com estes dramas existenciais
que me desvia o caminho quando começo a entender
quando ainda nem sei respirar como esperam de mim
até o fim do dia consigo voltar, se não tudo bem
ligação

um cinema no céu
e janela na alma
esperam por mim
palavras soltas..

13.10.08

De trem pra Montes Claros - Grupo Raízes


Essa estrada, leva e traz dor e alegria,

A primeira caminhada, a primeira companhia,

Vim do sertão, lá do meio da chapada

Quanto tempo, quanta estrada

Tanta curva perigosa

É muito fácil, todo passarinho voa

Toda mata eu sei que é boa

Quando não tem alçapão, tem nada não

caminhar por onde se passa,

E mês que vem, eu vou de trem pra Montes Claros...

tem nada não, caminhar por onde se passa

E mês que vem eu vou de trem pra Montes Claros

E mês que vem eu vou de trem pra Montes Claros...

10.10.08

a notícia ruim e a notícia boa

a notícia boa é que não tem notícia ruim
e
a notícia ruim é que não tem notícia boa

7.10.08

tudo, nada e qualquer coisa

faz um tempo eu queria mesmo dizer
que não me faça perguntas cretinas
você sabe tudo quando não digo algo
e não tente advinhar o que eu penso
quando você já sabe tudo que quero
qualquer tudo, nada e a mesma coisa
é mesmo tudo, nada e qualquer coisa

30.9.08

princípios da composição da anti-matéria

a diferença elementar entre o remédio e o veneno é a dose
assim como entre nós e deus é a unidade ou multiplicidade

29.9.08

você me lembra de coisas que penso
que estavam em lugares diferentes
e assim consigo encontrar Cartola,
Bethoven e Syd Barret na minha rua

no fim do dia eu coloco um som e acendo a minha cabeça olhando para a janela e mesmo sem te ver eu já acho que você está olhando para mim. você me olha com os olhinhos meio fechados como se preparasse daqui uns poucos anos para dizer um dia que já estou velho demais para pensar em rock'and roll, pois sabe me dizer essas coisas da caretice, só você me diz sobre lei seca e cartão de vacinação. coisas vãs que eu deixei lá fora. por mim até as formigas na calçada me levariam e eu enfim naturalmente as diria: leve-me ao seu líder, tenho um chicletes no bolso..

25.9.08

e. me acostumei de você me dizer tantas coisas da sua vida imaginária quando está acordada. e. incrível. nunca sente algum rancor de falar mal sobre si mesma. se considera bastante perigosa. eu. daqui de baixo ao menos fico mais tranquilo ao perceber que já não está tão assustada com este mundo e até dá cotovelos nas paredes por qualquer causa perdida, sentimento contraditório de um pai que vê a criança cair e se enche de orgulho por ela saber levantar. às vezes acho mesmo que eu sou o seu pai, como ás vezes sou seu filho, acho que somos do mesmo tamanho, mas quando nos despedimos beijo a sua testa e você cabe nos meus braços com um sorriso derretido lamentando alguma ausência passageira, e eu também.

24.9.08

that's okay,
não falo inglês

it's all right,
nunca fui no hawaii

mundo simples,
nada consta..

paleativos
na ponta do dedo
e na outra ponta
o botão de ligar a bomba

23.9.08

coisas que aprendí matando aula..

plural dos substantivos compostos

não foi uma delas, não, nada disto

.quem não vê lá fora outra estação

se lembra agora da última palavra.

nada do que eu disse antes de ir

e lembra de si mesmo como se fosse

uma outra pessoa falando sozinha.

enfim, se tudo é normal e tão mais

normal é sonhar sem saber o que é

e acordar novamente do outro lado.
andar entre a gente
sorriso contente
a boca sem dente
até no céu

tabagismo
pessimiso
consumismo

conspiração em velório
..

22.9.08

e..

como assim?
futuro é a pessoa que agente espera e nunca vem..

como se o momento entre abrir a carta e ler
se dilatasse por dias, séculos e nunca chegar..

assim a vida de ser-estar e não saber o que vem

o oscar vai para..
como quem diz, assim,
com cara de amanhã;
você vai morrer dia..

________________________________________[fim.

19.9.08

curta-metragem


disperso inexato irrestrito execelência
pato garfo quatro dardos pavio assoalho
p cigarro cachaça calçada churrasco rua
é paleativo remédio execelência cachaça
assoalho cigarro rua paleativo remédio
irrestrito calçada churrascogarfo quatro
pato dardos pavio disperso inexato pé <<
....................................................(..)

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças
Livros, sim...

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir...
lennon-doherty-zéder

strawberry fields forever

fuck forever

folk-you forever

18.9.08

qual dente?


aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

a dentadura, sim, é a arte

o que faço não é nada

não tenho a minha telecaster

não tenho carteira de artista

não tenho permissão de subverter

não tenho frequentado o hype

não estou matriculado no underground

não estou registrado na galeria

não tenho pés na calçada da fama

nada que me seduz, nada surpreende mais

onde está a arte que estava aqui?

repetição

repetição

repetição

repetição

repetição

repetição

repetição

repetição

repetição

repetição

repetição

repetição

repetição


abre aspas e fecha aspas

mesma coisa sobre o nada
última fronteira da poluição

sentido nada faz
definitivamente eu realmente nada
e depois tudo bem se de alguma forma
lugar nenhum em todo lugar
redundâncias boiando e escolhas mal feitas
resta além de alguma alternativa e alternativa
sobre o céu nada dos últimos versos, restos
do que sobrou depois que nada aconteceu
o fim fora de ordem ainda pode ser o começo

ou
ou
ou
ou
ou
ou
ou
ou
ou
ow

..
três notas blues


yeah blues

all right

i fell good blues, yeah



yeah blues

all right

i fell good blues, yeah



yeah blues

all right

i fell good blues, yeah


l i k e a r o l l i n g s t o n e s


yeahh
oh yeahh

yeahh
oh yeahh

yeah
oh yeah


o h y e a h , oh yeah, oh yeah, ÔIÉ
acabouainspiração

não tenho nada pra escrever aqui hoje

quantas horas?

qualquer uma, não preciso de nenhuma mesmo

e daí se não .. ah, deixa pra lá

16.9.08


existencialismo materialista

-um copo d'água por favor..
-um real.
hey girl, tudo bem se você
faz questão de esquecer meu nome

penso que é uma escolha normal
de quem se deixa levar, ok.

vejo o seu olhar de paisagem
.. você reflete o que vê

15.9.08

quase solidão

copo de água no mesmo lugar no dia seguinte
pedaço de chão descoberto de poeira
cheiro de mofo sobre qualquer coisa
quando dizem pra você não sair de casa

13.9.08

www.myspace.com/suicidalcotonetes

9.9.08

você me pede sem dizer palavras
eu penso em tudo que você me diz
não te peço um copo de água
você não acende a luz
preciso parar um pouco mais
e pensar mais em nada
eu estava pensando justamente nisto
sobre como sempre estou pensando em algo..

5.9.08

festival internacional de poesia


três poemas do bloco de notas inscritos no Psiu Poético:


açúcar e universo

Bem, é tão simples
e parece incrível.
Como um dia de sorte ou
como nenhum outro dia
deitado, olhando pra cima,
e a incrível vontade de voar.


Não sei mesmo se é isso.
Sei que passo dez horas por dia no sétimo andar,
fico pensando a dez kilômetros por hora na sua direção
e se isso representa uma metáfora talvez mesmo
a própria vida seja assim, uma poesia.

e olha que bonito presente eu ganhei
um poema da resposta que eu te dei.
E quando dizem fim de século pra nós,
pras estrelas é apenas o fim de semana.







banalidades anti-sistema de uma pessoa introspectiva normal á beira de um ataque de abismo .. ou pseudo ensaio do discurso realista, nada a ver com nada


..descascando laranjas em frente á tv,
não mais cervejas,
não mais planetas.
desisto da arte..
disso que se chama
a dor humana
a expansão do universo
a direção do cosmos
a desintegração da antimatéria
não interessa tanto agora.
as pirâmides do Egito, o Himalaia,
os jardins suspensos ou o Taj Mahal
estão todos lá fora.
o mundo até aqui, a esquina é alí
o império do garfo e faca sobre a mesa
não me intriga mais
o iluminismo não ilumina o quarto,
o pão espera ferver a água do café
já que voltei para casa mais cedo
nada me questiona
nada me incomoda
minto pra mim se confortável for acreditar
caí de maduro e acordei
dos mesmos sonhos de quando eu não tinha
antes de me colocarem no chão
sou apenas eu olhando pra mim

tentando me ver atrás do espelho..
agora eu sou moderno,

não me importo se é eterno,

até que é bom esquecer.
deitado sobre o rascunho,

pedaço de papel, poema sem fim

Remédio para a alma,

como quem espera nuvens..







O CARTEIRO E A ESTRADA

fez belas canções de amor pra ela, mas ninguém as viu.
naquele banco, voltado para o nada em pensamentos longes,
assoviava uma melodia fácil, juntando os calcanhares
como nunca havia feito antes. estava irreconhecível
dentro de um sorriso meio torto do alto daqueles
vinte e sete anos em tão aguardados minutos que corriam.
chegara cedo, apressado e com tempo
de conter a respiração mais apressada,
fazendo-se como quem veio de perto ou de carro próprio.
sorriu sozinho olhando o meio fio, meio sem graça,
esperando por alguém que não viu chegar ainda.
havia confirmado, telefonado, cartão com perfume
caligrafia treinada e tudo mais. esperou mais do que podia.
pensava nos motivos. talvez engano.
e até tarde de seus últimos minutos,
perdeu o ônibus e a timidez.
ao contrário dos carros apressados que vinham do outro lado,
voltava pra casa caminhando com as mãos sobrando
nos bolsos vazios no meio do nada, agora amassado,
nem se lembrava mais desde antes. pensava como foi o dia,
como chegou até alí, tinha tinha esquentado a água,
pensou no que diria em palavras, havia passado a roupa
que agora já não estava limpa, passou frio, passou vergonha
e esqueceu as chaves, estava do lado de fora de sua pequena casa alugada
e por uma noite inteira de pensamentos engolia a saliva
que havia guardado para um beijo longo
ensaiado apenas em um silencioso monólogo
de noites e noites anteriores.
daquela estação nunca mais ele sorriu como antes,
perdeu um certo trejeito que tinha no rosto,
mas agora dormia sem pensar muito,
errava mais com gosto de errar menos,
não esquecia mais as chaves e pisou os pés no chão.
ninguém nunca lhe disse nada parecido,
mas pela primeira vez pensou sozinho:
“deve ser divertido andar por aí e se perder no caminho.”



1.9.08

instinto & vinho tinto


acabo de me lembrar,
não era nada disso..

era um gato que andava em cima das casas
e via o mundo de uma forma nada diferente
mas ninguém nunca lhe perguntou sobre
coisas do ocidente, propagandas de refrigerantes,
calorias, conservantes e bebidas em excesso.
ele não pretendia conviver com as pessoas
mas isso não fazia dele um gato sem dentes

mas sempre olhava a data de validade da latinha
imaginando ser o dia do aniversário da sardinha.

28.8.08

hello acaso

destinos, tanto faz.
ou é coincidência..

o acaso é quase sempre uma bola fora,
não é grande coisa assim, não acontece

penso ser grande coincidência
que um destino programado
dê certo quando acontece ..

o mundo não gasta seu tempo com nossos dias
e tem ainda muita coisa por aí que não importa
quantos dentes você tem?
também não sei
também não sei quantos dentes você tem na boca

digo: olá! como foi o seu di-a? a..
hum. silêncio, e penso: tudo bem

22.8.08

simplesmente não me interessa
definitivamentenão me importo

é indiscutível pensar no passado
e não tenho pensado muito nisto

somente me diz respeito o erro que
eu deixei de cometer na hora certa
e que minhas poesias são só minhas
e eu não falo de você nem pra mim

..

sempre me pergunta as mesmas coisas

como se não soubesse a resposta

como se não fosse parte do que eu deveria te dizer

você tropeça em todas as prateleiras

enquanto eu sempre te digo tudo bem

você não sabe dizer nem obrigado

insensível, você se considera invisível

e se acha normal quando está na minha frente

você não sabe que ainda posso te ver


então foda-se, mas tudo bem


ás vezes acho que não te odiei
o suficiente pra te amar tanto

são palavras que eu queria dizer
mas não há tempo, então não digo

então foda-se, mas tudo bem
acho que era isso que eu queria dizer

então foda-se, mas tudo bem
eu deveria ter dito há muito tempo

então foda-se, mas tudo bem. outra vez,
pra me acostumar com esse gosto estranho de liberdade

quero tocar, beber o pouco da juventude que ainda está pendurada atrás da porta junto com os sapatos velhos e o guarda-chuva rasgado que a minha avó me emprestou..


21.8.08

rua 01

pupilas dilatadas em pálpebras baixas
e vendo os mesmos carros passarem

a vida toda para o mesmo lado, ir
do mesmo banco,
pela mesma porta
a mesma janela,
mesma árvore
mesmas folhas caem no chão
sombras de lado a lado, seis ás seis
e à sombra dos cabelos brancos que caem com as folhas

sempre tudo mesmo
á mesma época dos anos que não passam com os carros

e essa rua até que deveria ter o meu nome
já que não saio daqui mesmo e muitos por aqui ficaram
eu, nem penso mais como deve ser lá fora

bem,
digo assim quando não penso em dizer nada
como muitos, daqueles que não vê tanta coisa acontecer, motivos pra mudar

que diz nada pra não querer dizer
desviando e temendo ouvir as mesmas palavras

de trás do balcão
encosta-se para trás e lamenta um cansaço de não fazer nada
porque nunca vem ninguém da calçada, ninguém compra nada

em bares que fecham cedo,
dos mesmos bêbados das sete horas, do meio dia e das cinco
pendindo as mesmas pingas, reclamando as mesmas ressacas

daqui do banco da calçada, à espera de ninguém
os mesmos velhos chinelos rastejam cobrindo os mesmos velhos passos

18.8.08

sereia





















quero encontrá-la para não dizer nada
fechar os olhos e ela me leva

penso em algum lugar que não tenha nome
um lugar onde eu não precisasse ter nome

perguntas e respostas não me dizem respeito
penso em um lugar onde jornal e a tv não possam ir

penso neste lugar quando penso em mim
certo lugar onde as pessoas se conheçam

penso na sereia em meu castelo de areia

12.8.08

All I Want To Do Is Rock”
Travis
Hey
I would really like to talk with you
Girl
Do you have the time to stop
Say
All I wanna do is rock
If this was any other day
I'd turn and walk the other way
today
I'll stay
Not walk away
Hey
I'm a foot without a sock
Without you
Love
You seem to work around the clock
Say
All I wanna do is rock
If this was any other day
I'd turn and walk the other way
But today
I'll stay
Not walk
Just rock
Hey!
Love!
Say
All I wanna do is rock
If this was any other day
I'd turn and walk the other way
But today
I'll stay
Okay
ela gosta de estrelas e lua
eu de nuvens e cerveja..

penso em tudo como um roteiro, mas ela já saiu do filme há muito tempo. e isso não tem nada a ver com um romance moderno. tenho alergia à poeira e coisas do tipo, ela faz tudo pelo cabelo mas não toma comprimidos. tenho tédio de ficar esperando, ela ficaria horas e horas sozinha e conseguiria não atender o telefone por longos períodos por quem quer que seja. costumo cumprimentar pessoas na ruas antes de me verem, ela não se importa em mudar de canal a qualquer momento..



7.8.08

pensamento de peixinho

daqui eu vejo o mundo
[pelas lentes do aquário]
cabeças e pés perto de mim
[côncavo sistema antiquado]
quão seco me parece ser, lá fora
[janelas me olham abrindo e fechando]
o mundo aqui nunca foi grande
[como as barrigas dos braços que jogam comida..]
mas que quase tudo aqui sou eu. do início ao fim.
[e ninguém me ouve quando sou todas as vozes]
penso que ainda existo no mar que é todo meu
no meu dicionário de poucas palavras que falo comigo
tenho muito o que fazer nos dias em que não estão de férias

6.8.08

do amor

Amantes pela rua sabem que estão certos..
Têm um certo olhar de subversividade
e distante para dentro de si mesmos..
sem pensar, mesmo que não saibam..

fazem do bairro o seu mundo
do metro quadrado, universo



31.7.08

apenas um

os primeiros dias de chuva
carregam as últimas poeiras
e me lembram músicas que
não me lembro mais agora

Ela diz. você é um garoto fraco
que tem o mundo nas mãos..
mas não sabe muito bem usar.

você sabe o que eu não sei
você sabe, não, eu não sei
coisas que nunca vou aprender

tudo bem, homem não chora
como os cachorros que latem

vamos parar com essa brincadeira e volta logo

não vale dizer que me esqueceu
assim tão depressa como você me disse

da boca pra fora qualquer coisa serve

não me interessa muito o que você diz quando
você nunca vai dizer o que realmente sente
logo nas primeiras palavras, ou despedida

você pode dizer o que quiser mas eu
não acredito que você já me esqueceu

não há despedida, não há você sem mim
não sei mesmo chorar, como não sei perder

não que não chore
não que sempre ganhe..

30.7.08

sim, mas..

tudo bem,
já passou

deixa pra lá,
então diz.
depois eu falo,
tá.
não era nada mesmo..
[...]

29.7.08

ah!

.. a felicidade tem um gosto de palavra sem significado!

- a leveza de um grande zeppelin entre nuvens
o equilíbrio inexplicável de uma bicicleta -

..e a incrível falta de criatividade de um pseudo poeta
perdido entre as contradições ambulantes que ele mesmo inventou.

!ha


..
..em um determinado momento
todos no cinema dizem: -Oh!' Amèlie..

quando o contrário de si mesmo
traz o reflexo da razão do espelho

quando as letras sobem
e as luzes que acendem..

e não são as luzes da revolução francesa,
mas a vilipendiosa sociedade da melancia..
esse destino..


Vejo as pessoas que nascem hoje
me lembro, ou penso que

..eu tinha muitos amigos no fumódromo.
Mas e se eu for atropelado.. e morrer hoje?
penso que eu deveria ter fumado..

Ou, e se eu não for atropelado e tudo isso for em vão?
aí eu queria ter fumado muito, bebido muito..
encontrado muitas pessoas
as que viveriam menos
as que blefariam e viveriam mais

Eu, aqui olhando pra fora..
olho para o teto e tento advinhar se ele está firme.
e se estivesse no fumódromo quando ele por acaso cair..?

-..não sei, ás vezes
penso em tanta coisa..-
por que escrevo?

..talvez porque respiro.

udigrudies falam qualquer coisa
grupies mascam chicletes
mas niguém diz nada..

sou como estes
que está aí e ninguém vê

a dúvida maior seria esta, se ser
e nada muito mais do que isso

e já que estou aqui, então
é como se tudo bem..

simples assim.



estou invisível.
o que acontece?

pessoas passam pela calçada
e têm pressa de algo que não sei
sempre estão indo à algum lugar
de um lado ou ao outro oposto
mas não olham para o lado..

veja o alvo,
me parece tão nublado..

28.7.08

/erro. qual problema?

a mecânica da roda não é a mesma que move as nuvens
sentido estreito da razão

vejo você toda sérious
fico pensando no que você está pensando
você nunca me diz nada o tempo todo

e eu sei bem porque não gosto de jogos
enquanto jogam dados na minha cabeça..

se eu não me engano ainda não sei de nada
o m u n d o é u m a n a v e e s p a c i a l

25.7.08

LUA
.
ela é a Lua
eu-satélite

que amor seja mesmo tudo,
sujeito e verbo

finito,
tendo tudo o seu contrário
infinita, contradição apenas existencial

tendo a felicidade por única verdade única
e a morte segredo

não sei, pouco sei ou nunca sei muito
..e se viver for uma dor que não passa?

29.6.08

das 7 nuvens..


às vezes até penso como se eu soubesse

entre a sutil diferença entre o ser o nada

talvez esteja o lugar onde moram os sonhos

como não sabemos onde começa uma

e onde terminam as outras nuvens.

fica o que sobra. essência, tijolos do céu.


.
qualquer verdade tão frágil,
contrário de si mesmo
aparência banal

poderia falar verdade
aos quatro cantos com
tanta ousadia que não
acreditariam mesmo..

por um sorriso largo
breve desacreditado

e andar sobre água.

28.6.08

QUEM FAZ A HISTÓRIA
Bertolt Brecht

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre consquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Fredrico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?

Uma vitória a cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?

Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava as despesas?

Tantos relatos.
Tantas perguntas.

27.6.08

naturel et subversives

há um cachorro lá fora com olhos de um governador de estado. há um gato sobre o tapete que tem sombrancelhas de rebeldes em guerrilha. há um peixe no aquário, me parece sequestrado. o rádio diz que faz sol lá fora, mas ele nunca saiu de casa para dar uma volta em torno de si mesmo. penso algo errado. via isso da cadeira de balanço, pêndulo, relógio na parede, de dentro da casa. planeta natal. carros lá fora, cometa. penso se deus sabe quem ele é. penso se deus é comida de peixinho. penso se o peixinho estava rezando com sua boquinha abrindo e fechando. penso quem sou em relação ao mundo. penso se, em várias possibilidades remotas. que se apenas um peixe no aquário, era um peixe no aquário vigiado pelo gato no tapete cercado pelo cão lá fora, como assim me disse o jornal. eu pensava no talento humano de criar situações constangedoras para outros. o aquário estava a kilômetros do mar mas mesmo que fosse um peixe de água doce, não é doce a sua vida. gatos precisam subir muros, posar de mauzinho e cachorros precisam de carinho, mesmo que por sua superfície não lhe pareça agora um cão bonzinho.
Belle And Sebastian: "A Space Boy Dream"
(tradução sem diagramação)

Eu sonhei que eu tinha que ir pra marte. Eu estou sempre brincando sobre ir a marte durante o dia. Mas diante dessa realidade, em um sonho, eu fiquei aterrorizado. E não seria como fazer um tour na lua. Havia três de nós indo, mas não podiamos ir todos na mesma nave. Nós tinhamos que ir um por vez com um dia de diferença entre cada. Eu tive que ir primeiro, e esse era o pensamento de atravessar todo aquele espaço negro. Toda aquela escuridão sem nada, e então sendo o primeiro a desembarcar lá, completamente sozinho. Eu sabia que supostamente era pra ser completamente escuro, apenas com uma superfície vermelha. Mas e se eu chegasse lá e houvesse luz, tudo civilizado e povoado e coisas do tipo? Então eu fiz um plano. Os outros astronautas seria meu pai e minha irmã. E meu pai viria antes de mim. Então eu decidi que quando eu chegasse eu esperaria sentado até ele chegar lá. E então nós poderiamos sair juntos e dar uma uma olhada por aí e ver que tipo de coisas haviam lá. E quando eu acordei e eu me encontrava no escuro, eu pensei que eu tivesse aterrizado. E eu simplesmente parei por um momento, esperando pelo meu pai a chegar também.

26.6.08

devolva o meu blasè

você roubou minha poesia.. mas
que raios você ainda quer de mim?

olho pra tevê pra não pensar em nada
burro, só vejo grama, mas é o futebol

dê me um ponta pé na cabeça
e não sei se é assim que se escreve

um fake de mim mesmo
olhando para o espelho

sem entender nada do que digo
eu só quero que você devolva o meu blasè
nunca diga sempre..

sempre se aprendende algo matando aulas.
mas você não me ensinou a pular os muros,
nunca apanhou na quarta série,
nunca esqueceu quanto é sete vezes oito,
nunca dançou sozinha em frente ao espelho,
nunca pôs um laço vermelho no cabelo,
nunca chorou debaixo de uma chuva,
não sabe esquecer de certos defeitos,
não tentou subverter a libertinagem.
mas colocou o mundo em uma poesia
que agora trazem o chão para os meus pés
poesia-tijolo

poesia concreta é tão abstrata mas eu ainda não sei porque
poesia concreta é tão abstrata mas eu ainda não sei porque
poesia concreta é tão abstrata mas eu ainda não sei porque
poesia concreta é tão abstrata mas eu ainda não sei porque
poesia concreta é tão abstrata mas eu ainda não sei porque
poesia concreta é tão abstrata mas eu ainda não sei porque
poesia concreta é tão abstrata mas eu ainda não sei porque
poesia concreta é tão abstrata mas eu ainda não sei porque


curtindo uma deprê..

você interpretou as palavras diferentes
mas não teve tempo de olhar pra mim
você não poderia esquecer tudo agora
não foram estas as flores que eu lhe dei

poderia deixar as sementes do sapato
poderia esquecer das estrelas e não foi
você fez o mais difícil, eu pensei em tudo
não foram estas as flores que eu lhe dei

você não sabe quem morreu e nem eu sei
você não sabe quem morri mas não fui eu
você não sabe, nem eu, quem morreu mas
não fui eu quem te disse que morreu fui eu


24.6.08

outro lá

engraçado, que estou feliz..
mas que estar é passageiro
e ao mesmo tempo é lugar.

mas isto não se reflete em
nada do que escrevo hoje..

ás vezes assim. escrevo,
sim, o que falta em mim
aponto para o lugar. lá.
mas outro lugar. lugar.
justo onde não estou.

20.6.08

um pouco herói

me sinto um pouco heroi que se engana sobre o mérito de seus métodos
se nem consigo me enganar
preciso te dizer uma verdade, mas não queria.
queria falar uma frase sem nexo
e sem cobranças, fingir de criança
alguém me segurar no ombro e dizer está tudo bem
penso que não preciso dizer
tanta gente não diz
complicado é difícil
mas não me traduza a todo momento..
podemos ir embora agora?
meus pés ainda balançam nesta cadeira quando falo sobre isso
só mais um pouco
não quero acordar agora
te peço, com a mão cheia de dedos, ao todo
dez minutos.
clandestino

um suposto gesto escondido pelas mangas longas
uma suposta vontade de te ver sem você me ver
suposto gosto de beijo guardado no bolso do peito
sem admitir que um pouco dói um pouco lembro
mas nenhuma suposta necessidade de esquecer
mesmo que aumente o suposto nada que ainda há

te amo um pouco clandestinamente e isso me dá de repente uma vontade de chorar e de rir. displicente, isso me deixa abaixo de um soldado raso com vontade de estar na linha de tiro e voltar pra casa pelo menos com olhar de cachorro flertando o chão.

um aperto de se não te ver mais
e saber que quando você vai sem se despedir
eu penso que você sente as mesmas coisas que eu

que pensar muito, se pouco adianta.
mas não dizer. ou digo que não.
digo que não quero, quando na verdade não posso.
o mundo aos olhos de todos não interessa muito agora
não há alguma escolha se você não me atende mais
nem precisava ser tão distante estrela, distante.
fico agora com o que passou por mim que como quase tudo
imagino que vejo de perto e às vezes escrevo sem querer
te dizendo coisas que eu nem deveria pensar
mas você sabe que eu não sei de nada
como nem sei qual parte de você eu gosto mais
tacofogo no Ricotta:

O DISCO DO RICOTTA JÁ ESTÁ DISPONÍVEL NA INTERNET

Felipe Ricotta, o anônimo mais famoso que eu conheço acaba de lançar seu primeiro e último disco virtual "Você não entendeu porra nenhuma", disco que vem depois da sequência de singles quase homônimos, em que ninguém aguentava mais a mesma piada.. Democracia Chinesa, Democracia Coreana, Democracia Tibetana, Democracia Boliviana, Democracia Paulistana e também o Democracia Putaqueopariu, entre outros.. são alguns dos singles da trilogia que renderam ao Ricotta alguns shows no underground e alguns clipes caseiros no youtube.

Enfim, Felipe Ricotta - "o famoso quem?" - escreve para a revista Dynamite e é influente no baixo clero do indie carioca - ..mas quem não gostaria?- mas finge desdenhar disso, como em Tacofogo - sua melhor música até aqui.

Mas o que faz de melhor mesmo é escrever bobagens no seu blog, não se engane pelo péssimo acabamento o blog, que é muito mal feito e apenas uma foto tirada de celular, mas o conteúdo é muito bom. Recomendo: www.carolazevedo.zip.net

Não se sabe ao certo de onde vem esse seu facínio pela Carol Azevedo - quem? - o msn do Ricotta é algo como carolazevedomorreu@hotmail.com - deve ser alguma paixão frustrada. Ou não, pois ele mente muito, mente como quem faz arte.

Ricotta ainda tem duas grandes comunidades no orkut "eu leio Ricotta" e "eu ouço Ricotta", que se não me engano acho que participo da primeira.

Ricotta é o intelectual deixado pra trás, é o famoso das margens, mas acima de tudo um dos idiotas mais geniais - 'autistas por por opção' - que ainda se pode ver fora do zoológico, leia-se: TV.

Embora não tenha boas influências, ao meu ver - como assim Igg Pop?? - , ele próprio é a influência. Enfim, Ricotta parece ser o Daniel Johnston brasileiro, mas nem tão bobo e até menos famoso. Por enquanto, talvez.

Ricotta é como aquele vizinho seu que você acha que deveria ser roteirista de curtametragens, com tanta bobagem que fala, bobagens inteligentes de uma geração cansada de muita informação.

clica aqui!!!!! :P

18.6.08

sobre portas e páginas

por um segundo pensei,
era o erro que eu te dei.

depois esquecí, não somos muito do que pensamos.

diplomatas mal educados e
guardanapos engravatados.
era o garfo que caía da mesa..

primeiros
segundos.

ninguém.

pensava em deus,
se ainda não existo..

era o núcleo de um vácuo respirando no plástico

era apenas um adolescente ciumento pensando em saídas fáceis enquanto sonha com uma mobilete e aprender a fumar cigarro.

de fronteiras se fecham quanto aos olhos que abrem.
acima da velocidade da fumaça que sobe.

cotovelos
sobre a mesa.
l e n t a m e n t e,
palitando os dentes

dedos apontados pra cima - Óh céus!
anjos na gangorra apoiada em nuvens.
dedos balançam de lado, dizem não"..

portas que abrem,
janelas no chão.

penso que ainda existe uma fórmula que te faça esquecer de tudo que eu digo em seguida, que não me faça voltar pra mim a cada instante.

pelos meus cabelos longos,
me enforcava, a sociedade.

era eu alí debaixo da mesa pegando o garfo.
pedindo desculpas e amarrando cadarços

não precisava dizer no final do filme
todos sabem, eu sei. eu sou a morsa

era um sonho, mas o sonho acabou. era não.
não era o sonho, não era nada, não era eu.

era eu debaixo da mesa contando o tempo.
a troco de chutes, pra não perder os dentes
mas ainda tenho o garfo em minhas mãos!

- ohh yeah!!'
andar pela calçada..

estão todos ocupados, ocupando todos os espaços

te contar o fim do filme e contar até infinito esperando você voltar
não é o mesmo que te contar uma história sem fim

tinha saudades de um tempo
mas nada é para sempre

pegue uma senha
e vá para o fim da fila

não precisa dizer
acho que eu já sei
músicas ridículas
mas não há culpa

moças da tevê não são tão belas
se não passam por minha janela

você sabe, eu não sei de nada.

que começa a doer logo quando se aprende,
borboletas me diriam, minutos que se vive,
tanta coisa não faz sentido, por vezes nem precisa..

preciso de uma rima para terminar esse poema. pode ser rima fácil, tosca, frágil, débil, inútil, descartável, inexpressivo, despercebido e sem luz, do tipo flor com dor. limpo, clássico, utópico, não dói, não quebra nem enferruja e é fácil de montar. ainda assim não rima com nada que eu penso agora. o que eu penso agora já passou.

10.6.08

;) quase isso..

em um outro plano, mas não aqui.
mas não vou roubar a sua frase.

seria fácil, mas este não é o meu nome.

mas obrigado pela essencia.. é assim
me diz agora do outro lado.. é assim
que as coisas acontecem por aqui..

pode ser que eu não esteja assim,

mas pode ser que eu escreva como se..

pois talvez algo parecido com isso

é como eu me imagino

quando me lembro de mim.

deixo a janela fechada.
o que há de errado?
ladrões no telhado, mas
não tenho nada no bolso.
a chave está lá fora
mas chove agora,
ok. nem tanto. se
estamos longe. afinal.
esqueça o que eu digo.
ela me disse: apague a luz
e feche a porta, agora,
mas com você do lado de fora.
mas, como assim?
não me lembro..

6.6.08

tenho um segredo
adoro ver pessoas desconhecidas na rua
eu olho para elas e quando sei que nunca mais vão me ver..
e nunca mais eu as vejo mesmo
mas estas pessoas para mim são como uma pessoa só
uma pessoa que está sempre ao meu lado
invariavelmente andando no sentido inverso ao meu
na fila do banco antes e depois de mim
ao meu lado no balcão de um bar
ás vezes tem gostos parecidos com o meu, quando está ao meu lado olhando um quadro, porque olha o mesmo quadro que eu, mas nunca sei se ela gostou do quadro porque nunca me diz nada. a gente se conhece a tanto tempo, agente se olha, mas a gente não se fala..

4.6.08

cada um, cada qual, com o seu relativismo.. ou não?

tenho pensado tanto nisso.. cabelo estranho. estranho pra quem? cabelos mudam o tempo todo. muda mais do que o mundo. quando penso em cabelo estranho penso em padaria pois é o lugar onde mais vou quando não penteio o cabelo. engraçado tudo isso. se olho no espelho eu vou ver é o meu cabelo. inconstante, contraditório, bobinho.. talvez. parece estranho e tão normal. e quando vou me acostumando vem o vento e desmancha tudo e me coloca na moda pra ser só mais um com o cabelo espetado..

28.5.08

futuro mais do que pretérito da sétima pessoa do plural

homem. disco voador que não veio. o cara vinha andando devagar, equilibrava na calçada, andava sobre abismo da consciência com medo de altura olhando para o chão. eu não sei se ele não sabia rezar ou se sabia que não adiantava muito esquecer tanta coisa que ainda existe, talvez eu nunca saiba, nunca mais o ví.

criança ia em direção à padaria, sabia que era lá, mas parou e deu volta com os olhos dizendo pra si mesmo que esqueceu o que ia comprar. comprou um pão a menos e esqueceu o troco, esqueceu de tomar café, perdeu a fome porque foi jogar futebol, via a bola girando no alto parecia um planeta, uma lua que batia na cabeça do goleiro antes de entrar pro goooooool. mas era contra. que distração. não tinha graça assim. mas comemorava muito quando ganhava porque perdia mais.

inverno me soa tão europeu. estação eu conhecí primeiro a do trem. talvez somos a página de um grande livro que nunca chega ao fim. algumas palavras chegam antes. determinado sentido. isso me diz muito ou quase tudo, até me fez falar português hoje em dia.. tom zé ou arnaldo baptista, alguém me disse algo parecido esses dias. tudo bem não importa muito agora, estamos subemergidos nos nossos próprios conceitos préconcebidos, afundamos juntos, abraçados...

26.5.08

doce lar

Não precisava nem dizer muito. Bastava.
Um olhar sem intensidade para qualquer lado
ou a falta de um sussurro, se muito, já sabia.
A senha de tantas palavras. Não parecia nada.

Ninguém mesmo sabia qual ponta dos extremos
poderiam estar mais próximos. Se fosse.
Antes até diria que a casa estava vazia.
Mas estavam incrivelmente felizes, cada um
à sua forma de silêncio e não olhar pra nada.

Também não sei como isso começa. Acontece
de ser feliz e começar a gostar de não falar.
Viviam, e apenas, como animais, plenamente.
Em busca de alimento e perpetuar a espécie.

Enquanto isso, no topo de um prédio, em
apartamentos, como em galhos de árvores:
filmes, refrigerante e alguma fritura qualquer.
.. Equilibram-se no topo da cadeia alimentar,
e cobertos, as pontas dos pés, se encontram.

23.5.08

ela fala sobre as coisas que vê
parece que tudo dela é em rosa
não importa se rima cor ou flor
a ela parece que nada importa
nem pelo lado quando eu a vejo
mas mais pelo que ela diz agora

acho que ela guarda laços de fita na gaveta, acho que ela tem diários e diários guardados. vejo no seu olhar que você teve quem acabasse no fundo de um copo e pelas olheiras eu diria que não faz tanto tempo assim. você saberia me dizer estas coisas mas não quer falar muito sobre isso, chama outro nome logo pra mudar de assunto e pede pra esquecer qualquer gosto de dia seguinte.
os homens são crianças que se deixaram esquecer. como se estivéssemos detrás de uma luz e não saberíamos mais fechar os olhos pra dormir porque assim já tanto faz, pedaços que deixamos para trás aparentemente sem sentido como sombras em cavernas, coisas que preferimos esquecer por não saber mais como usar, mas, na verdade, bem mais do que temos agora. vivemos num tempo quando crescer é andar pra frente e só olhar pra traz, e a cada dia viciando em novas necessidades inúteis perdendo todas a referência da medida dos sonhos e o contato com as nuvens, em que pra lembrar de tudo é esquecer de si mesmo. os homens são crianças que se deixaram esquecer, como uma nova invenção pior do que a matéria prima. no entanto, assim mesmo, tendo como necessária a convivência, o desejo pelo lado escuro da outra face da lua e a volta como inancançável, por isso esquecemos tanto..
pequenos vícius

quase tudo era acidez em colheres, copos e cigarros.
geladeira sem água, mas ninguém vem.
desenho uma janela na parede,
vejo a lâmpada quebrada quando é dia
e na rua pessoas ainda são pedestres
todo prazer contido em embalagens descartáveis.
receita para esperar o fim do mundo, leva:
açúcar, alcool, fumaça, corantes, conservantes, sal e gordura.
quanto ao pé do muro, ou ao menos se importar,
invisibilidade nas cidades urbanas, outro lado, caos e multidão,
atrás de pequenos gestos, dedo-no-nariz, cospir-no-chão.
nostalgia, década de noventa, logo alí. e 2001, ninguém viu.
largava o sorriso de lado trocado por alguma possibilidade.
poluído de anúncios, não via tantas cores. jogava o dado, mão ao alto.
das páginas da velha enciclopédia que vasculhava atrás de uma ponta perdida,
quase todos os pensamentos em relação ao futuro tinha alguma coisa a ver com o seu sentimento de leve injustiça por ter que trabalhar para viver.
planejava uma tentativa de erro.
podia dizer todos os detalhes sobre algo específico desde que não sirva para nada,
deliciosos condimentos que constantemente lhe faziam mal.
azia, prisão de ventre e dor de barriga,
como as ressacas das noites passadas.
andar na rua sem ver ninguém, estava a mil enquanto dormem.
por um cigarro àquela hora poderia dizer que ama qualquer pessoa pelo resto da vida
virtude do gosto, ventura autodigestiva perto do fim do mundo.
se estivesse em casa lhe cairia bem o teto na cabeça.
ou se não fumasse tanto talvez um carro o jogaria a sete metros
dalí para sete palmos no chão. todo improvável era tão comum.
assim mesmo não guardava nenhuma expressão que demonstrasse a sua verdadeira idade.
menos ou mais, o tempo nunca lhe foi útil na porta de um bar.
era apenas ser e não pensa mais. acostumava-se a quase tudo.
respirava por instinto, cheirava à fumaça, poeira e mofo.
desgastava todas as promessas de amor por total conveniência,
beijava a tampa da privada, mas não gostava de si mesmo.
enchergava no próprio espelho outra pessoa,
enquanto divertia-se com os próprios tombos,
ria dos outros, rindo de si mesmo.

20.5.08

me parece tão filosófico o tempo de vida de um palito de fósforos ou o ponto de vista um copo de água em cima da mesa tendo uma garrafa vazia na geladeira, ou flores arrancadas simbolizando o amor.. quando penso que quando observo coisas elas talvez não olham mais para mim e eu me sinto sempre o mesmo como agora ou quando eu me importava com estas coisas.. um copo meio vazio sem obrigação de me embriagar todas as noites em que volto para casa sozinho, smepre o mesmo caminho. perguntas bôbas e lágrimas por nada, apenas cisco no olho. me encontre em total relatividade na esquina de nenhum acontecimento e eu te pergunto talvez, decerto que as coisas ainda são as mesmas quando não as vejo, ou ainda assim uma frase sem sentido no meio do texto. mas era justamente o erro. o que seria do nada sem ter onde pousar. talvez o mesmo que seria civilização se todos nós comêssemos com a mão. sim. todos sombras e luzes esperando um final.

2.5.08

ví tudo isso ontem na t.v, eu disse que você perdeu. ansiedade e novas embalagens com código de barras. você joga qualquer coisa no lixo antes de atravessar o sinal fechado. pela cidade, você se vê no tubo de ensaio da humanidade. depressa você aprende o real significado do termo viver em sociedade. eles não fazem muita coisa por você, eles não sabem que você tem bons costumes, já não ligam muito pra isso hoje em dia. tênis branco suja toda hora e há quem deixa poças de lama na porta de sua casa e não sabe o que é limpar um tênis em pleno sábado à tarde. tem dias que eu preferia apenas escrever meu nome com os olhos fechados e esquecer profundamente de algumas coisas, mas não é só isso.
Quando te assustaram e torturaram durante 20 estranhos anos. Então esperam que escolhas uma carreira. Quando não consegues mesmo funcionar, estás tão cheio de medo. Há que ser um herói da classe operária

John Lennon - "Working Class Hero"




















"Se toda a gente exigisse paz em vez de outro televisor, haveria paz." - John Lennon

18.4.08

não desamarro os meus sapatos ao descalçá-los e meus cabelos não foram penteados no século retrasado. só nos últimos duzentos anos tive que me semi-enforcar em uma gravata e faz apenas 50 anos que assisto televisão. depois de tanto tempo sem janela e eu já olhava para o horizonte com cara de paisagem, eu morava do lado de fora ou morava na caverna. eu morava do lado de fora e eu olhava pra dentro de mim. Como você se sente? pergunta a boca de uma mão que pousa nos meus ombros, e eu nem sei mais o que dizer depois de tanto tempo sem ouvir isso. o que eu dizia. eu falava de parafusos em antenas parabólicas, eu sabia de cor todos os números dos canais da tevê, eu anotava receias de bolo e emprestava minha escova de dentes para quem me desse um beijo. eu tinha tempo de escrever impressões sobre o futuro. eu tinha vinte e sete anos.

16.4.08

(... trecho de Rebelde entre os Rebeldes, de Arnaldo Baptista)


Quatro anos se passaram da maneira mais tranqüila possível para quem está viajando pelo espaço em direção a outro planeta. O casal já tivera dois filhos: uma menina de três anos e um garoto de um. Sarah, a menina, era a imagem da pureza. Tinha os cabelos negros como o azeviche e um sorriso de arteira, sua pela vivia corada pelos banhos de luz ultravioleta. O garoto, chamado Martin, tinha a feição mais séria e era um pouco rechonchudo. Os dois passavam o dia inteiro brincando.

Durante uma tarde aparentemente comum, a reinação foi interrompida pelo piscar da luz de alarme que se encontrava junto à tela de Horácio, que tomava conta das crianças enquanto os pais dormiam. Seguindo a orientação do cérebro eletrônico, Sarah parou de brincar e foi resignada até o quarto dos pais avisar sobre o perigo desconhecido.

Vestida num baby-doll laranja, Maggie chegou até a tela, sentou-se na cadeira de comando e perguntou:

- O que foi, querido? (Era assim que ela passara a chamar o enorme autômato, porque Mauro não parecia ter ciúmes dele.)

- Há uma batalha pela frente! - Respondeu Horácio.

- O que?

Maggie deu um pulo da cadeira e, como Horário não costumava brincar com coisas sérias, foi correndo acordar o marido. Mauro foi conduzido, meio cambaleante, até a frente da tela, na qual uma enorme quantidade de números se acumulara como que por mágica.

As crianças assistiam a tudo divertindo-se com a correria, mas no fundo estavam um pouco preocupadas com o ar sério assumido pelos adultos.

- Ouça o que Horácio tem a dizer, Mauro.

- Sinto muito incomodá-los logo depois do almoço, mas meus sensores localizaram duas astronaves alienígenas a algumas centenas de quilômetros em aparente atitude beligerante uma em relação à outra. Posso observar grandes jatos de energia destruidora partindo ora de uma, ora de outra. Não sei porque ainda não nos detectaram. Talvez seus sensores não sejam tão poderosos quanto os nossos. Gostaria que tivessem uma visão de suas estruturas externas.

Na mesma hora desapareceram os números da grande tela e as imagens de duas astronaves surgiram. Deviam pertencer a culturas diferentes, pois tinham formas completamente díspares. Uma delas parecia uma esfera negra, enquanto a outra era uma espécie de emaranhado de módulos conectados uns aos outros, assim como Fobos, e também tinha a coloração puxada para o cinza claro.

Primeiro pensaram que a melhor opção seria passar ao largo da batalha, sem se meter na vida dos outros. Horácio sugeriu então um grande aumento de velocidade, coisa que ainda era possível para casos de emergência. Assim, mesmo que a Fobos fosse notada e interpelada, ainda haveria chance de escapar com êxito.

Aprovado o plano, Horácio recomendou que toda a família tomasse pílulas de sono e se deitasse para dormir. Era importante que, no caso de um possível confronto, estivessem todos devidamente descansados. Resmungando contra foguetes, seres extraterrenos e batalhas no espaço, Mauro foi deitar dizendo que, cansado do jeito que estava, não seriam necessárias pílulas. Na verdade, sentia tanto sono que poderia dormir os seis anos restantes de viagem até a Nova Terra.

Os quatro foram acordados pelo altíssimo ruído do Alerta Vermelho. Mauro saiu de seu quarto resmungando entre dentes as piores pragas que conhecia. Chegou de pijama mesmo ao posto de combate, que nada mais era do que o antigo trono do Dr. Harness. Infelizmente não havia sido possível simplesmente fugir do combate, e agora eles teriam que enfrentá-lo!

Horácio fornecia à Maggie as coordenadas das duas naves alienígenas, ao mesmo tempo em que mostrava a Mauro as piores cenas que havia gravado da batalha. Sempre que via uma descarga de energia particularmente horrível, o ex-mecânico xingava com vontade e era imediatamente imitado pelas crianças sorridentes que brincavam no chão. Maggie conseguiu captar os sons das emissões radiofônicas feitas pelos comunicadores internos de uma das naves. Para sua surpresa, ela ouviu algo estranhamente familiar. Na mesma hora, pediu para Horácio transmitir a Mauro as conversações que ela interceptara. A pessoa que falava parecia usar um inglês meio estropiado e cheio de erros. Intrigada, Maggie perguntou:

- Será que há alguma chance de termos desenvolvido tal velocidade que estejamos diante de uma nave terrestre do futuro, em alguma missão de guerra?

- Pode ser – respondeu o computador. – Nesse caso, os humanos do futuro estão tendo uma dificuldade danada para evitar as granadas de luz da nave inimiga.

Na tela principal, agora era possível enxergar um ser humano através dos vidros da nave esférica. Sabiam, portanto, que aquela nave escura vinha da Terra e seus habitantes eram terráqueos, assim como Mauro e Maggie.

- Caramba! Que surpresa! Mas na verdade, já podíamos esperar por isso. Uma hora eles chegariam por aqui – disse Mauro.

- Temos que pensar no que fazer – disse a mulher, já visivelmente aflita.

- Pensei em uma coisa – falou Mauro. - Eu sugiro que, quanto estivermos a uma distância um pouco menor de ambas as naves, disparemos nossos emissores telepáticos com a música mais calma e sublime dos arquivos. Talvez a “Sonata ao Luar”, de Beethoven. Deve fazer efeito, pois as duas serão tomadas de surpresa pela emissão e não saberão de onde vem.

Todos concordaram coma sugestão. Quando chegaram a uma distância segura das duas naves, Fobos fez a poderosa transmissão na direção da batalha. Maggie ficou na escuta do rádio, captando as ondas sonoras na freqüência dos intercomunicadores. Ouviu o seguinte diálogo entre as duas naves:

- Parem com isso! Não sabem lutar como cavalheiros? Que música é essa?

- Não estamos fazendo nada além de jogar as granadas de luz! Vocês é que estão enviando essa música para cá!

- Nada disso, tudo é culpa de vocês!

- Já disse que não ligamos música nenhuma! Mas até que a melodia que vocês enviaram é bonita...

- Isso é verdade, mas não tente mudar de assunto...

A conversa se prolongou por um tempo, enquanto as hostilidades diminuíam progressivamente. Os capitães das duas naves quiseram então pela primeira vez saber quais eram as intenções dos inimigos. Parecia que nesse confronto, ou talvez nessa época do futuro onde estavam, havia um clima de tensão tão exacerbado que os dois povos não se comunicavam, concentrando-se somente em destruir o outro. Mas agora era difícil lutar contra a música de Beethoven, que trazia acordes de paz, harmonia e compreensão entre os seres de todo o universo.

A transmissão continuou por toda a duração da “Sonata ao Luar”. Quando a música acabou, os habitantes da Fobos assistiram com uma certa nostalgia à lenta desaparição das naves, uma para cada lado, como se seus tripulantes estivessem tristes por não mais ouvir àquela música, mas aliviados e renovados pela experiência pela qual haviam acabado de passar.

Quando todos achavam que a página já estava virada e se preparavam para dormir novamente, o alerta no painel de controle disparou mais uma vez. Mauro olhou para Horácio em busca de uma explicação para mais aquela preocupação:

- Há o que se chama de um torvelinho temporal na direção da nave alienígena – esclareceu o computador.

- E o que vem a ser isso, Horácio? - Maggie indagou.

- Me parece que, se continuarmos a nossa rota pré-estabelecida, haverá um encontro temporal entre a nossa nave e a dos alienígenas. Há uma grande agitação de poeira cósmica no rastro da nave deles, indicando que estão em um tempo ainda por vir para nós. E a grande coincidência é que o tempo futuro no qual estão vivendo e a localização espacial de sua nave são exatamente os mesmos que alcançaremos ao seguirmos os cursos planejados de nossa viagem.

- Minha nossa, Horácio! Isso quer dizer que nós somos os alienígenas num tempo remoto!

- Puxa vida! - disse Mauro - Como pôde ter acontecido isso? Por que lutamos contra os terrestres?

- Meus senhores, não devemos sair de nossa rota agora, pois seria uma manobra um tanto bisonha e improdutiva para nossos objetivos.

- Mas então o que vamos fazer? – perguntou Maggie

- A nave alienígena ainda está há uma longa distância no futuro, se mudarmos nossa direção, a deles também poderá mudar e fazer com que nossas tentativas não surtam efeito algum. Recomendo prosseguirmos com os sensores ligados na direção dos alienígenas permanentemente. É provável que quando cheguemos mais perto deles, os sensores nos indiquem os específicos movimentos que devemos fazer, não deixando tempo hábil para que a nave alienígena também se movimente como conseqüência de nossa própria movimentação. Creio que os sensores captarão alguma forma de energia do torvelinho, nos indicando para onde devemos nos mover, a fim de afastarmos o perigo de uma colisão física. Enfim, precisamos desviar apenas o necessário, sem sairmos de nossa rota, para não corrermos o risco de ficar vagando no espaço sem direção. Caso contrário, poderíamos ir de encontro a nós mesmos e acabar numa encruzilhada tão obscura que impossibilitaria uma mudança de conduta.

Alguns silenciosos minutos se passaram, todos pensavam na idéia de Horácio mas hesitavam em tomar uma decisão. Até que Mauro sentou-se na poltrona de frente para a tela e mostrou toda a força especulativa de sua mente privilegiada. Falou num tom explicativo, como quem expunha uma teoria ainda incerta:

- Desculpe se eu me intrometo num assunto que não conheço bem, pois não passo de um bom mecânico. Mas estive escutando algumas das conversas que você e nosso querido cérebro eletrônico têm travado. Pensei numa coisa que talvez possa solucionar nossos problemas em relação ao futuro não muito atraente que acabamos de ver. Corrijam-me se eu estiver errado, mas a única forma de podermos enxergar a luz provinda de nós mesmos, ou seja, de termos uma visão da nossa imagem num futuro, seria através de uma janela no contínuo do Universo Circular, certo?

Maggie concordou com a cabeça, encorajando o marido a continuar.

- Só assim seria possível nos depararmos conosco do outro lado do círculo que o universo faz, de acordo com a teoria de Einstein. É por isso, então, que estamos muito longe de nós mesmos no espaço físico, na verdade estamos o mais distante possível, a exatamente o tamanho do diâmetro do universo. Devemos ter conseguido desenvolver uma velocidade relativa entre as duas naves bem próxima, mas abaixo da velocidade da luz, para que, atingindo o limite do universo visível, tenhamos nos visto no espelho do cosmos. E os terrestres acabaram nos perseguindo com tanto afinco que entraram também nessa vertiginosa viagem do destino. Porém, o encontro com eles talvez não seja um fator imutável no nosso futuro! Talvez seja simplesmente necessário atingirmos uma velocidade relativa bem distante em relação aos terrestres, mas ao mesmo tempo bem próxima da de nós mesmos no futuro. Utilizaríamos assim o registro de futuro que já temos para podermos evitar o combate.

Um sorriso apareceu na boca de Maggie e na tela de Horácio. Mauro continuou a falar:

- Bem... nós temos que achar um meio de avisar nossos semelhantes, quer dizer, nós mesmos no futuro. Ou seja, temos que descobrir uma forma de transmitir a eles os conhecimentos que estamos extraindo desse encontro tão importante que presenciamos.

- Mas que forma seria essa? – perguntou Maggie.

- Não sei bem. Horácio terá que nos ajudar com isso. Precisamos construir algo como um rádio temporal que entre em contato direto com os bancos de dados da nave, para que, na hora exata em que haja uma constatação de estarem indo de encontro aos terráqueos num campo de batalha, esse fato seja revertido. Vocês já repararam que, na realidade, nós já estamos combatendo os terráqueos pelos simples fato de que nós vimos esse combate no futuro?

- Sim, Mauro – respondeu Horácio. - Mas você também não deve se esquecer que na linha do universo físico, tudo o que acontece no presente é um fato histórico imutável, verificado e visto, constante, embora a batalha tenha sido presenciada por nós como algo inerente a um futuro nosso, e todo aquele momento já fazer parte de um tempo passado agora. Assim, há uma tangente entre passado e futuro, dentro do plano quadridimensional do Universo Einsteiniano. Isso nos levou a algo como uma dobra no tempo, por isso pudemos ver literalmente nosso futuro. Deve ter havido uma grande aceleração de ambas as partes, de nós e nossos semelhantes do futuro, para que essa dobra na geometria do universo aparecesse. Não será possível enviar os dados da batalha diretamente para o computador deles devido a essa dobra, mas posso construir um aparelho de teletransporte espacial e temporal que levará você para dentro da nave deles!

- Então eu vou levar os dados que colhemos da batalha, arquivados em um disquete e, quando chegar lá, vou inserir o arquivo no cérebro eletrônico da nave deles. Assim eles terão o conhecimento que temos. Claro que isso deve ser feito da maneira mais discreta possível, para não alarmar os habitantes da nave. Não podemos despertar suspeitas, temos que deixá-los encontrar as informações em seu computador sem que fiquem sabendo de nós.

Maggie ficou espantada com o discurso do seu marido.

- Puxa, Mauro! Você andava meio desligado das nossas conversas, mas agora se revelou um grande físico! Que maravilha! - disse a mulher, dando um abraço nele e se dirigindo ao computador. - Tudo isso é perfeitamente possível, certo Horácio? O que você me diz, querido?

- De acordo com meus cálculos, dentro de exatamente quatorze horas, uma cápsula de efeito teletransportador ficará pronta. Nosso único inimigo é a inércia.

Dito e feito. Depois de quatorze horas, Mauro abriu a escotilha da cápsula teletransportadora e, com um disquete previamente gravado por Horácio, sumiu e apareceu de repente na frente de uma esplêndida loura dormindo num quarto. Ficou encantado com a beleza daquela moça, cujos traços lembravam muito os de Maggie, quase ao ponto de esquecer que ela deveria ser sua filha no futuro. Recompôs-se, lembrando que não podia ser notado naquela nave. Deixou o quarto e seguiu silenciosamente até a central de programação do cérebro eletrônico da nave, o Horácio do futuro.

A tarefa de inserir o disquete no computador sem ser notado por ninguém foi mais fácil do que imaginara. A família inteira parecia estar na sua hora de cochilo e Mauro pensou que talvez Horácio tivesse calculado isso, pois era muita coincidência. Mauro viu que as informações estavam sendo assimiladas pelo computador com rapidez, e imaginou o que seu semelhante do futuro pensaria sobre aquilo. Nesses momento, teve a certeza de que seu eu-futuro acabaria descobrindo facilmente os dados da batalha e os usaria para estabelecer um rota de fuga. A batalha, agora, não mais se desenrolaria indubitavelmente. Sentiu ainda que seu semelhante em outro lugar do tempo perdoaria aquela invasão de privacidade e concordaria com a atitude que estava tomando agora, provendo a si mesmo no futuro informações valiosas.

De volta à Fobos, Mauro apareceu em meio a uma nuvenzinha branca, como aquela fumaça de gelo seco, efeito esse que deve ter sido programado por Horácio para criar um clima. O homem não disse nada e saiu pomposamente da cápsula, Horácio deveria estar se torcendo de rir por dentro.

- Missão cumprida, queridos! Tudo foi realizado no maior sigilo. Duvido que nossa pequena invasão seja detectada. Creio que agora podemos continuar nossa rota em direção ao planeta desconhecido sem que sejamos incomodados por novos vórtices temporais! Cansei dos problemas provocados pelo nosso deslocamento em altas velocidades pelo espaço sideral. Pessoalmente, eu preferia as pistas de corrida lá na Terra!

- Deixe isso para lá, querido. Teremos agora caminho livre para nosso futuro promissor!

E lá se foram os habitantes de Fobos, cruzando o universo em busca de uma nova casa e um pouco de paz.