pupilas dilatadas em pálpebras baixas
e vendo os mesmos carros passarem
a vida toda para o mesmo lado, ir
do mesmo banco,
pela mesma porta
a mesma janela,
mesma árvore
mesmas folhas caem no chão
sombras de lado a lado, seis ás seis
e à sombra dos cabelos brancos que caem com as folhas
sempre tudo mesmo
á mesma época dos anos que não passam com os carros
e essa rua até que deveria ter o meu nome
já que não saio daqui mesmo e muitos por aqui ficaram
eu, nem penso mais como deve ser lá fora
bem,
digo assim quando não penso em dizer nada
como muitos, daqueles que não vê tanta coisa acontecer, motivos pra mudar
que diz nada pra não querer dizer
desviando e temendo ouvir as mesmas palavras
de trás do balcão
encosta-se para trás e lamenta um cansaço de não fazer nada
porque nunca vem ninguém da calçada, ninguém compra nada
em bares que fecham cedo,
dos mesmos bêbados das sete horas, do meio dia e das cinco
pendindo as mesmas pingas, reclamando as mesmas ressacas
daqui do banco da calçada, à espera de ninguém
os mesmos velhos chinelos rastejam cobrindo os mesmos velhos passos

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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
- Mário Quintana