açúcar e universo
Bem, é tão simples
e parece incrível.
Como um dia de sorte ou
como nenhum outro dia
deitado, olhando pra cima,
e a incrível vontade de voar.
Não sei mesmo se é isso.
Sei que passo dez horas por dia no sétimo andar,
fico pensando a dez kilômetros por hora na sua direção
e se isso representa uma metáfora talvez mesmo
a própria vida seja assim, uma poesia.
e olha que bonito presente eu ganhei
um poema da resposta que eu te dei.
E quando dizem fim de século pra nós,
pras estrelas é apenas o fim de semana.
banalidades anti-sistema de uma pessoa introspectiva normal á beira de um ataque de abismo .. ou pseudo ensaio do discurso realista, nada a ver com nada
..descascando laranjas em frente á tv,
não mais cervejas,
não mais planetas.
desisto da arte..
disso que se chama
a dor humana
a expansão do universo
a direção do cosmos
a desintegração da antimatéria
não interessa tanto agora.
as pirâmides do Egito, o Himalaia,
os jardins suspensos ou o Taj Mahal
estão todos lá fora.
o mundo até aqui, a esquina é alí
o império do garfo e faca sobre a mesa
não me intriga mais
o iluminismo não ilumina o quarto,
o pão espera ferver a água do café
já que voltei para casa mais cedo
nada me questiona
nada me incomoda
minto pra mim se confortável for acreditar
caí de maduro e acordei
dos mesmos sonhos de quando eu não tinha
antes de me colocarem no chão
sou apenas eu olhando pra mim
tentando me ver atrás do espelho..
agora eu sou moderno,
não me importo se é eterno,
até que é bom esquecer.
deitado sobre o rascunho,
pedaço de papel, poema sem fim
Remédio para a alma,
como quem espera nuvens..
O CARTEIRO E A ESTRADA
fez belas canções de amor pra ela, mas ninguém as viu.
naquele banco, voltado para o nada em pensamentos longes,
assoviava uma melodia fácil, juntando os calcanhares
como nunca havia feito antes. estava irreconhecível
dentro de um sorriso meio torto do alto daqueles
vinte e sete anos em tão aguardados minutos que corriam.
chegara cedo, apressado e com tempo
de conter a respiração mais apressada,
fazendo-se como quem veio de perto ou de carro próprio.
sorriu sozinho olhando o meio fio, meio sem graça,
esperando por alguém que não viu chegar ainda.
havia confirmado, telefonado, cartão com perfume
caligrafia treinada e tudo mais. esperou mais do que podia.
pensava nos motivos. talvez engano.
e até tarde de seus últimos minutos,
perdeu o ônibus e a timidez.
ao contrário dos carros apressados que vinham do outro lado,
voltava pra casa caminhando com as mãos sobrando
nos bolsos vazios no meio do nada, agora amassado,
nem se lembrava mais desde antes. pensava como foi o dia,
como chegou até alí, tinha tinha esquentado a água,
pensou no que diria em palavras, havia passado a roupa
que agora já não estava limpa, passou frio, passou vergonha
e esqueceu as chaves, estava do lado de fora de sua pequena casa alugada
e por uma noite inteira de pensamentos engolia a saliva
que havia guardado para um beijo longo
ensaiado apenas em um silencioso monólogo
de noites e noites anteriores.
daquela estação nunca mais ele sorriu como antes,
perdeu um certo trejeito que tinha no rosto,
mas agora dormia sem pensar muito,
errava mais com gosto de errar menos,
não esquecia mais as chaves e pisou os pés no chão.
ninguém nunca lhe disse nada parecido,
mas pela primeira vez pensou sozinho:
“deve ser divertido andar por aí e se perder no caminho.”

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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
- Mário Quintana