18.4.08

não desamarro os meus sapatos ao descalçá-los e meus cabelos não foram penteados no século retrasado. só nos últimos duzentos anos tive que me semi-enforcar em uma gravata e faz apenas 50 anos que assisto televisão. depois de tanto tempo sem janela e eu já olhava para o horizonte com cara de paisagem, eu morava do lado de fora ou morava na caverna. eu morava do lado de fora e eu olhava pra dentro de mim. Como você se sente? pergunta a boca de uma mão que pousa nos meus ombros, e eu nem sei mais o que dizer depois de tanto tempo sem ouvir isso. o que eu dizia. eu falava de parafusos em antenas parabólicas, eu sabia de cor todos os números dos canais da tevê, eu anotava receias de bolo e emprestava minha escova de dentes para quem me desse um beijo. eu tinha tempo de escrever impressões sobre o futuro. eu tinha vinte e sete anos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

- Mário Quintana