27.6.08

naturel et subversives

há um cachorro lá fora com olhos de um governador de estado. há um gato sobre o tapete que tem sombrancelhas de rebeldes em guerrilha. há um peixe no aquário, me parece sequestrado. o rádio diz que faz sol lá fora, mas ele nunca saiu de casa para dar uma volta em torno de si mesmo. penso algo errado. via isso da cadeira de balanço, pêndulo, relógio na parede, de dentro da casa. planeta natal. carros lá fora, cometa. penso se deus sabe quem ele é. penso se deus é comida de peixinho. penso se o peixinho estava rezando com sua boquinha abrindo e fechando. penso quem sou em relação ao mundo. penso se, em várias possibilidades remotas. que se apenas um peixe no aquário, era um peixe no aquário vigiado pelo gato no tapete cercado pelo cão lá fora, como assim me disse o jornal. eu pensava no talento humano de criar situações constangedoras para outros. o aquário estava a kilômetros do mar mas mesmo que fosse um peixe de água doce, não é doce a sua vida. gatos precisam subir muros, posar de mauzinho e cachorros precisam de carinho, mesmo que por sua superfície não lhe pareça agora um cão bonzinho.

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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

- Mário Quintana