Um Dia de Verão - Soneto XVIII
Se te comparo a um dia de verão
és por certo mais bela e mais serena.
O vento espalha as flores pelo chão
e a demora do estio é bem pequena.
Às vezes brilha o sol em demasia
outras vezes desmaia com frieza.
O que é belo declina num só dia,
na eterna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
esse encanto que tens não perderás
nem chegarás da morte ao triste inverno.
Nestas linhas, com o tempo, crescerás,
e enquanto sobre a terra houver um ser
meus versos, vivos, te farão viver.
- Willian Shakespeare
Dos Três Mal Amados
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas,
O amor comeu metros e metros de gravatas
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte
- João Cabral de Melo Neto
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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
- Mário Quintana