fez belas canções de amor pra ela, mas ninguém as viu. naquele banco, voltado para o nada em pensamentos longes, assoviava uma melodia fácil, juntando os calcanhares como nunca havia feito antes. estava irreconhecível dentro de um sorriso meio torto do alto daqueles vinte e sete anos em tão aguardados minutos que corriam. chegara cedo, apressado e com tempo de conter a respiração mais apressada, fazendo-se como quem veio de perto ou de carro próprio. sorriu sozinho olhando o meio fio, meio sem graça, esperando por alguém que não viu chegar ainda. havia confirmado, telefonado, cartão com perfume caligrafia treinada e tudo mais. esperou mais do que podia. pensava nos motivos. talvez engano. e até tarde de seus últimos minutos, perdeu o ônibus e a timidez. ao contrário dos carros apressados que vinham do outro lado, voltava pra casa caminhando com as mãos sobrando nos bolsos vazios no meio do nada, agora amassado, nem se lembrava mais desde antes. pensava como foi o dia, como chegou até alí, tinha tinha esquentado a água, pensou no que diria em palavras, havia passado a roupa que agora já não estava limpa, passou frio, passou vergonha e esqueceu as chaves, estava do lado de fora de sua pequena casa alugada e por uma noite inteira de pensamentos engolia a saliva que havia gardado para um beijo longo ensaiado apenas em um silencioso monólogo de noites e noites anteriores. até daquela estação nunca mais ele sorriu como antes, perdeu um certo trejeito que tinha no rosto, mas agora dormia sem pensar muito, errava menos, não esquecia mais as chaves e pisou os pés no chão.
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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
- Mário Quintana