Entrou na sala sem avisar da mesma forma de sempre. Um par de pés esticados no sofá ainda não lhe chamava a atenção senão pelo braço esticado para baixo trazendo também o queixo para o lado. Não queria pensar em nada que mude os seus pensamentos de antes. Tudo bem, resolveu esquecer e olhava aquela estranha anatomia, olhando também em volta. Apenas uma pessoa. Para si e pensava em outra coisa. Não, era um corpo. Pensava sozinho e tentava não fixar os olhos e pensar como antes. Não tinha jeito: "-Calma, a poesia está viva. Mas não o poeta." Como quem leva uma porrada de imediata sequência de pensamentos interrompidos. Volta ao caos como veio: "Como assim, não tenho escolha? Meus placebos de autoajuda que eu havia guardado debaixo do colchão, tanto tempo perdido em minutos de sabedoria. Catecismos, crismas e cataclismas. Tudo isso, para isso? E nem consigo formular uma pergunta inteira que me tire daqui." Percebeu que falava alto e agora respirava com os pulmões ranhados que tinha. Tinha um encontro marcado, estava tudo certo e agora apenas náuseas. Gastrite e pigarro também. Antes fosse uma história pra contar, pensava em vão. Um estranho silêncio irritava, não ouvia mais nada, meio como algo sem nome ou revolution #9 do white álbum. Ainda podia sonhar, não mais. Sentia-se observado pelo juízo final, onde todos têm fim. Mas que fim? Fim do bom senso, miséria perdida, perdão por acaso e outros pecados tiravam de onde estava para uma total contradição na voz e a razão. Buscou a ironia o sarcasmo ou a loucura pra se esconder. Covarde era eu ou você por acabar assim. Fora isso só pensava em fugir, esquecer do que viu, tentar acordar. Não era sonho, nem realidade. Estava na sua frente aquele queixo estendido para cima e a sombra que escurecia a sala lhe apontando formulários, atestados, perícias, ofícios, despachos, calendários, parentes distantes e contar pra pagar. Já estava alí havia longos minutos, olhava para o nada, nada lhe consolava. Não pela perda, não pela perda de sono, mas por todo o corredor de mãos, braços e abraços que haveria de apertar, e olhos para convencer. Já pensava em olhos sinceros, cansados e pensava nas aulas de teatro. Se repetia irritantemente como se não houvesse dito antes ou como se alguém ditasse o que dizer. Olhos chapados, distantes e perdidos. Olhos que não fechavam havia dias, olhos que fecharam bares, olhos que viram todos os lados de um mesmo sol. Ainda assim com a centralidade de um açougueiro olhando para o boi gordo tão maior que ele, mas tranquilo. Era este mesmo olhar que via agora o chão sujo e tinha raiva, só que sem raiva. Até alí tudo bem se conseguisse manter o mal estar, mas não sabia. Estava tão nervoso que lhe vinha um riso estranho e carregado do estômago. Não tinha fome. Tinha certeza e uma certeza menor também, ele tinha. Queria fumar e beber, sem pensar na ressaca e até conseguir não pensar em mais nada. Entorpecer, entorpecer. Sim, isto. Estava certo do que queria em sua vontade imediata mesmo que insana, mesmo que mesquinha. Queria voltar ao passado e não pisar além daquela porta deixando passos pelo chão empoeirado. Talvez, estava quase certo, não havia mais volta, só pensava nisso, e todo tempo que tinha de sobra agora era curto de mais. Olhava agora aquele mamífero abatido com tanta raiva e cortesia que queria matá-lo se não tivesse morrido.
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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
- Mário Quintana