Precisava chegar logo, já era tarde e costumava chegar cedo. Tentava passar sempre por lugares diferentes na estrada da volta e da ida, mas eram poucas as opções naquele bairro de lotes mal-planejados. Por causa dos cães doentes, naquele dia não cogitava passar pela rua de baixo onde também podiam sentir o cheiro de lixo queimado que embrulhava o estômago e adiava a hora do jantar. Seus passos seguiam firmes junto aos velhos sapatos pela estrada como se soubessem qual era mesmo o caminho de volta. Pessoas que passavam mais rápido, ainda nem lhe chamavam a atenção. Alguns bares fechados e o barulho dos copos quebrando, sugeriam um ambiente seguramente instável. Alguém vinha e passava por ele. Embora estivesse à frente, um estranho caminhava pelas mesmas ruas e era como se o seguisse à frente. Vindo de trás e depois de muitos metros ele quis justificar: “Senhor, desculpe, gostaria de esclarecer que não estou te seguindo.” Ao que o outro retornou e disse: “-Tudo bem, eu sei pra onde você vai, na verdade sou eu que te sigo.” Disse isso e sorriu compulsivamente, com seus dois dentes de ouro que brilhavam no meio de uma boca banguela cheirando cachaça barata ...
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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
- Mário Quintana