Parecia outono, mas era verão. Odiava estas datas fora do calendário, lua, inverno e chuva. Coisa de idiotas olhar para o céu, pensou alto consigo mesmo. Odiava até as férias escolares, momento em que as crianças se sujavam nas ruas correndo atrás de bolas e quase sendo atropeladas por quase todos os dias. Quando havia batida de carro na rua era um evento muito esperado, muitos aguardavam nas esquinas mais perigosas e ver as tripas das pessoas era como se fosse um troféu pra contar na escola cercados de olhos admirados e rostos enrugados pela velha expressão de nojo na cara. Era o fim de tarde de um dia qualquer, as crianças já estavam sujas, mas alguns já vinham sujos de suas casas mesmo. Todos já sabiam mijar no muro, roubar manga e beber água da torneira. A turma da escola era composta de pequenos guetos ou gangues cujos assuntos principais se assemelham mais a um manual didático de como decepcionar mais os seus próprios pais. Era a bola, era o jogo, era o chute para o gol! Agora era o gandula, era a rua cheia de carros, era a rua, era a lua. Olhou pra lua, atravessou a rua e um carro lhe atravessou as tripas. Era sol e o sangue quentes no chão, sangue que outrora corria em suas veias enquanto ele correu atrás da bola. Era um bom garoto, todos diziam. Era nada, outros pensavam, gostava de ver pessoas atropeladas na rua e o desenho que as tripas fazem no asfalto quente..
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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
- Mário Quintana