24.10.07

.. like a Woody Allen


'Monólogo ou narração? O que vale é o sentido'. Disse assim perguntando como se soubesse a resposta sobre si mesmo e respondeu como se não estivesse certo se ainda era isso. 'Mas qual sentido?'.

Disse longamente alguma coisa que não lembro agora em um largo sorriso como se preenchesse um vazio eterno de um tempo dilatado e resumisse outras palavras com um olhar sorridente tentando evitar o que não precisava ser dito. Pausadamente, voltava agora, olhando para os lados como quem distrai a si mesmo tentando desviar que pensava no que ia falar -, '..fique á vontade, não repara a bagunça da casa, permaneça em transe..' - declinando a fala até interromper, procurando alguma informalidade no ar, pega um livro, solta o livro e pensa: 'por que eu disse permaneça em transe? Não era pra dizer isso'-. Mas continua e pensa que se continuasse falando, esta frase solta talvez se dissolvesse no ar: '-Aceita café, chá, bolo, bolacha, biscoito, chocolate ou a chave do meu coração?' .. Vai até o som, liga qualquer música e continua. Por sorte era uma boa música, mas antes disso pensa novamente: 'porque eu disse a chave do meu coração?'.. Teve uma idéia: sorrir. Foi sorrir, mas demorou tanto que ela achou engraçado. Ele sorriu, ela sorriu (ah, alívio..). E percebia que teria de falar mais e mais, cada vez mais displicente pra dissolver mais esta que deixara escapar, sorte que ela estava distraída e feliz. Pensou como ela é tão linda sorrindo e também pensou em mostrar logo algo que ele escreveu naquele dia e dizer que é inovador, algo como: 'Se achar de se levar por estas linhas tortas pretenciosamente displicentes..' - mas não disse, pensava em tudo, testava outras palavras a contornar o que deveria dizer e enquanto dizia outras coisas ensaiava sozinho como dissolver as palavras mais fortes. Sua pretensão maior, ter a companhia dela pelo tempo. Mas não sabia dizer, também não sabia que não precisava explicar, até tinha palavras, várias delas, mas nenhuma combinava, leves ou forte demais para aquele momento, o certo é que não conseguia achar o tempo certo. Ir além, este caminho maior, e é tão fácil seguir.. O sublime, do olhar lúdico que fita e quase nem vê, me diz qualquer coisa da diferença plural das coisas loucas e atravessar a linha do limite a que somos desenhados. A loucura que é voltar-se contra o condicionamento dos padrões, esquecer as fórmulas e se reinventar é saber da convenção abstrata de símbolos comportamentais ditados, portanto frágeis.. Por esta maioria determinada, comemos com colher e garfo, ocidente de exércitos que dominaram esta região há meio milênio, uma maioria que define comportamentos, na verdade, uma minoria que domina idéias em um tempo-espaço qualquer, e 'por acaso' aqui. Vejo os loucos com o otimismo de quem vê onde achar respostas sem precisar se explicar. Absolvição da culpa e liberdade, uns não sabem, renega que não ter asas signifique fincar os pés no chão. Mesmo que sobre o papel ou tela, as várias formas de expressão nos dizem mesmo quem somos, a extensão de nossos braços e o alcance dos olhos. Natural escapar instintos e por decreto, escrito em nuvens, se deixar voar. Disse coisas mais ou menos assim só que com outras palavras. Desculpando-se por falar demais; dizia que era raro isso, desta vez já estava sentado tentou tirar algum pretexto do bolso - como se precisasse de um - e a viu olhando-o, percebeu que ela o via com um carinho compreensivo de quem já sabe o que vê desde quando longe e o absolve do ridículo sob desculpa do carisma.
Pela última vez pensou que tinha ensaiado a tarde toda em frente ao espelho e nada do combinado havia acontecido, mas tudo estava dando incrivelmente certo de certa forma, redundante, mesmo assim. Finalmente consegue parar de pensar no presente. '- Certa vez ví um filme..' Gestos leves e inconscientes de ambos quase combinados, - a câmera se afasta, não há mais áudio, entra uma música qualquer - bocas falando sugerem que o assunto se tornara agora margem sob qualquer pretexto de sorriso.



Um comentário:

  1. Ensaiamos, pensamos e repensamos mil vezes tantas situações cotidianas... e na hora, como no texto, tudo se modifica, porém sai muito melhor do que os ensaios prévios, pra vermos que tudo podia começar num sorriso de aprovação, e em gestos cheios de ternura!
    Assim se resume a vida, num encontro desencontrado, que sempre dá mais certo do que qualquer estrofe ensaiada!

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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

- Mário Quintana