25.10.07

Freak Folk

"A guerra acabou se você quiser" - John Lennon

"Ouvi alguém dizer que a guerra terminou hoje, mas todos sabem que ainda há. Nossas mães-terra e mãe-mar. Veja o que pensamos: É simples, não queremos matar" - Devendra Banhart

Naturalmente enquanto escrevo esta resenha ouço trechos do disco (foto acima) [aqui] que mudou um pouco a história da música 'artesanal' recente, e exatamente neste disco que se realiza a expressão do novo naturalismo na música popular contemporânea, digo 'naturalismo' assim mesmo em português e não 'naturalism' como podem imaginar. Apesar de ter surgido recentemente lá fora, no exterior, o movimento tem raízes brasileiras e até tem lá sua representante recente a paulistana Cibelle - que tocará este ano no Tim festival ao lado de nomes como Bjork e Arctic Monkeys - e ainda Rodrigo Amarante do Los Hemanos que participou do último disco do pai do freak folk Devendra Banhart, fã assumido de Caetano Veloso.

O álbum é o Vetiver da banda de mesmo nome que reunia nomes como Devendra Banhart, Alissa Anderson, Jim Gaylord e Andy Cabic, com as participações de Joanna Newsom, Hope Sandoval e Colm O'Ciosoig (dos My Bloody Valentine), estes depois se juntariam a outros nomes que hoje da 'New Weird America' - novos esquisitões da américa - como Nick Drake, Vashti Bunyan e Donovan (que hoje descobrí quase foi o vocalista do Led Zeppelin).

Curiosamente cheguei a este conceito de música após uma faísca de idéia que tive ao assistir um documentário sobre hip hop que não me lembro bem o nome, mas entrevistava o Mano Brown dos Racionais MC's que contou que disse para o Seu Jorge que ele deveria 'levar esse violão pro morro, pra subir o morro.' Esta frase abriu em mim uma nova percepção, o da luta de classes na música. Aqui, passados a 500 anos de colonização dois dos grandes artistas nossos buscando saídas reais para questões necessárias, a necessidade de cultura. Paralelo a isto: forma x função.

Me lembro de me sentir sempre frustrado quando aos 13 anos eu era fã do Iron Maiden e nunca teria a minha guitarra e aparelhos de última geração como eles. Como poderia imitar aqueles solos com pedaleiras cheias de botões em um palco enorme cuspindo fogo para todos os lados? Percebí que a realidade do Iron Maiden não era a minha, percebí que o meu mundo era diferente do da televisão e que o único intrumento a que eu tinha acesso era mesmo o meu humilde violão, ainda assim só depois dos 18 anos. Assim, descontruí todos os paradigmas e passei por toda a euforia do Alice In Chains, Soundgarden, Nirvana e Pearl Jam achando ter sido contemplado pelos acústicos que vieram aos montes (o do Alice pra mim foi o melhor, o do Nirvana o mais expressivo), ao menos em parte por um arrojo menor por mais expressividade. O grunge pra mim foi o meu punk.

O folk me agrada desde a sua própria tradução literalmente folclórica e pela relação 'forma x função' era um som que eu poderia fazer, mas uma fórmula que achava estar praticamente esgotada, foi se tornando para mim novamente uma arte menor no fim do século. Até que recentemente o freak folk como movimento atual banalizou os arranjos e adotou pitorescas vozes até cantando errado, se preciso fosse, moderniza a velha fórmula voz-e-violão, quando se achava que não havia nada além do grande Bob Dylan, ganha força pelas mãos da crítica e pelo público índie, alternativo e o legitimei ao saber que grande parte da idéia saiu daqui mesmo do Tropicalismo; Mutantes, Caetano, Secos e Molhados, Novos Baianos, Tom Zé.. etc. Sobre o Tropicalismo poderia falar mais e mais, assim como eu diria da semana de 22, seu antecendente ancestral e provedor da cultura nacional.


Não se sabe o que seria se nomes como Renato Russo ou Raul Seixas estivessem vivos o fato é que por aqui não há grandes novidades muito além de um Los Hermanos em recesso ou um Vaguart forçado mais freak do que folk.

Creio que a maior falta que esta atual geração hippie faz é de uma politização maior como foi no fim da década de 60 pela paz. Se bem que ainda temos um Devendra a plagiar Lennon e conter um pouco deste vazio da modernidade onde quando alguém que flutua em frente à Casa Branca não mais é um manifesto pela paz, mas uma propaganda de seu show em uma casa de espetáculos como tantas outras do mainstream cobrando ingresso, como nos verdadeiros espetáculos freak.

Em relação aos 'antigos hippies' falta um engajamento maior contra a guerra e um senso crítico mais forte, mas sabemos que se nem toda loucura é genial ao menos nos faz pensar, talvez, agir mas com certeza nos faz sentir bem.
No mínimo Freak Folk contra o baixo astral. Talvez seja isso.

Por fim, o naturalismo é em parte a espécie de neo arcadismo experimental á qual estávamos esperando, ou pelo menos eu, sem nenhum barulho para dizer a que veio mas aí está pelo menos a aglutinar idéias alternativas á grande ordem musical. Muito mais político do que politizado, nem mesmo este conceito de naturalismo exclui outras formas de manifestações seja guitarras ou mesmo artifícios como palco já que o natural sengundo o próprio Devendra - o nosso John Lennon - é a inclusão do todo e de tudo inclusive do plástico que também veio da natureza, é uma nova percepção que contemplam ao menos em parte ao mesmo tempo uma organicidade pelo meio ambiente e o meu humilde violão, sem pedais cheios de botões ou palcos que cospem fogo.




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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

- Mário Quintana