Ocidente Adolescente
Respirava inconstante como quem distrai o silêncio, como bateria de jazz que não quer marcar tempo algum, os ombros que balançavam lado a lado em pendentes braços de mãos fincadas no bolso, olhava para o chão e podia ter a certeza que era ele todo alí em uma única sombra com membros destacados do corpo em contratempos revezava entre a velocidade e o improvável equilíbrio entre joelhos e cotovelos. Entre detalhes improváveis e generalidades espaciais tentava dispensar o que não lhe servia concentrando nos limites físicos e simbólicos de si mesmo. Olhos inconstantes não fixavam em nenhuma paisagem como se já houvesse passado por alí mais de algumas vezes e caminhava no meio da rua como se soubesse que nenhum carro alí passaria, se assim sorte seria; seria mais cedo e mais tempo teria, se bem que o tempo não passava. Precisava de um pouso insuspeito, lhe daria um retrato distraído, algo que lhe ocupasse as mãos e não lhe imprimisse culpa ou suspeição de si mesmo, não conseguia pensar em mais nada e ainda assim todas as possibilidades lhe povoava a cabeça. Mais uma vez olhava para si, ainda cabisbaixo, e pela primeira vez reparava qual roupa estava vestindo, isso raramente lhe fazia tanta diferença, conferia se alguma cor diferente lhe havia acompanhado, se o sapato arrastava algum estilhaço ou se não deixava nada para trás, mas se lembrava que evitava estas coisas mesmo antes quando escolhia a roupa, aquela que lhe desse menos trabalho em situações mais diversas imagináveis, tudo bem, não importava agora, estava imerso e precisava voltar á tona. Se ao menos soubesse a hora, pensava e pensava novamente no trajeto que fizera, se dera muitas voltas, quantos banheiros entrara, quantas pessoas perguntava as horas e haveria de perguntar mais uma vez, quantas pessoas conhecidas viu na rua e como eram as desconhecidas. Demorava mais e vez por outra pensava em sentar em algum lugar, mas o que diria se lhe parassem o vendo alí? Essa pergunta lhe roubava alguns suspiros, suava e nem percebia, tirava as mãos do bolso e vez por outra fingia achar alguma coisa no chão, mantendo a provável pressa. Não se lembrava mais quem tinha visto, tentava não perder a linha de pensamento e quiz chorar quando pensou que outros que ele não via poderiam vê-lo, parecia difícil dominar a situação. Não conseguia imaginar se seria melhor surgir ou se esconder, por isso andava em semicírculos pelos quarteirões esperando que a sorte lhe encontre mas nem tanto. Voltava ao centro já pela terceira vez, tentava eleger os principais aspectos a vigiar, tentava revisar todas as possibilidades e variáveis, tentava saber se fazia frio ou calor, pensava se isto era o mais importante naquele momento ou não e pensava novamente quando tentou atravessar a rua e voltara para trás, quando encarou o relógio de um transeunte atrás das horas e foi ignorado pensou que estivesse com uma aparência diferente ou semblante variado, mas quando olha em um retrovisor de carro a imagem era quase sempre a mesma, não dava para saber pois pelos lugares que estava andando sempre as luzes lhe eram indiretas ainda a imprimir na fronte o reflexo do espelho. Pensou se era frio ou calor, penso que estava no meio de uma estação e outra, pensava se deveria tirar o blusão, tentava se lembrar se as pessoas estavam com roupas longas ou curtas mas ainda assim lembrou que nunca reparava roupa de ninguém, enxergava mais as pessoas que estavam dentro delas mas isto agora não lhe servia de nada. O que mais queria neste momento era sair dalí, recuperar o semblante de outrora, quando não precisava pensar tanto, encontrar um lugar deserto, seco e seguro longe de pessoas. Neste momento sentiu uma forte raiva de toda a humanidade e preferiu ser outra coisa ou não ter existido a ter que passar por isto. Rapidamente pensou, triste, que seguramente estava em um dos piores momentos de sua vida e que sempre odiou não ter alternativa, escolha. Pensava como quem grita consigo: O que é pior, morrer ou viver assim? E com a morte, ter um final tão indigno justo no pior momento de sua vida. Pensou em tudo que passara, pensou sobre como começou , como chegara até alí, todas as pessoas e diálogos que se passaram retroativamente durante o dia, a semana, o ano, pensou porque tinha nascido e se teria mesmo valido a pena e percebeu que não conseguia ordenar os pensamentos como antes, que estava influenciado pela situação, que mudava de assunto consigo mesmo quando pensava algo mais profundo, que perdera o domínio sobre seu pensamento, que não conseguia se lembrar mesmo de muita coisa, que precisava descansar pra entender quando decidiu algo que o levava a isto. Estava dominado pela raiva, pensava em várias coisas ao mesmo tempo e quando vinha a vertigem não conseguia pensar em mais nada, sabia que um sonho não era e sentia que estava acordado, não sabia onde estava mas não podia parar. Por sobrevivência, encontrava forças que não tinha, evitava pensar em si mesmo, talvez assim. Pensou que poderia se enganar a tentar compreender que estivera em algum momento buscado algum sentido por um sentimento pelo menos que lhe dê algum sentido, pensava em sonhos mas não era esta a palavra, nem mesmo conseguia pensar em palavras, pensava apenas e mais nada. Novamente á tona, começava a perceber que era um ciclo e procurava aceitar a falta de lógica em meio ao caos pois talvez assim poderia obter mais consciência para encontrar um bom lugar. Andava, pensava, andava. Sentia uma enorme culpa por não compreender o que se passava e a esta altura já havia passado pela segunda vez naquela rua não podia mais desviar os olhares e deixou escapar o medo do medo contra o olhar de alguns viventes daquele dia, um que passava seguiu á frente. Quando tentava se lembrar que dia da semana era, também se condenava em ser parte do todo: perguntando onde estavam todos os preceitos morais, princípios éticos; cadeiras, mesas e quadros de escola; sinais, leis e manuais de sobrevivência em sociedade; esta selva, este laboratório desgraçado; que me empurraram guela abaixo a vida toda? Com tantas gerações e ainda não desenvolveram alguma tecnologia capaz de suportar a sua própria existência. Dizem que chegaram á lua e não entenderam que pessoas inocentes também podem passar por isto? Qual a lógica da complexidade humana em convivência pacífica se há tantos caminhos sem saída? Sem resposta, falando sozinho, decide pensar que pode se salvar ou pelo menos apenas salvar-se contra si mesmo: Absolvo todos os pecados do mundo se não tiveram opção de escolha, como quando acontece de existir e se encontrar nesta situação ter que cumprir algum destino e não tiver como fugir, correr, sair, escapar, nada. Quem com uma mão cria e com a outra condena, como quem cria ratos em laboratórios em uma situação idealizada, programada, sem saída? Conseguia organizar o pensamento, era um caminho e continuava: Se não há saída, se não tenho a quem me recorrer nesta ridícula cadeia alimentar humana, me entrego mantido o protesto contra o mundo, contra mim, contra esse céu e essa terra que fizeram, ninguém veio me consultar, não participei nem participo desta trama a não ser como isca do monstro que somos todos nós, este leviatã -que merda-, é no mínimo uma derrota universal estar em uma situação tão ridícula sem ter feito nada e pagar por estar vivo. Vida ou experiência grotesca, mal acabada, sem graça, trágica e infeliz? O que é isto que chamam de vida se não a consciência do lixo que somos, carregar todos os fardos de saber disso e ainda pagar? Se sou templo desta farsa destituo a existência, renuncio á dor e á esperança, entrego á vergonha. Se sou deles me odeio e odeio mais ainda quem foi o desgraçado que inventou a porra da cegonha vagabunda que trazem os bebês no bico.. Pensava estas coisas consigo mesmo e sofria por não encontrar saída e cada vez mais o tempo passar. As coisas se repetiam na sua cabeça como se dissesse tudo em eco e o que pensava sobre a cegonha acabara de lembrar, sem pensar arrancou do peito uma puta de uma gargalhada e foi a primeira vez que transmitiu um som. HAHA. Sentiu-se estranhamente feliz e isso lhe dava um enorme prazer e não hesitou: Cegonha desgraçada! Vá se fuder, vagabunda! Ninguém lhe chamou! Eu devia ter lhe dado uma porrada ao me trazer até aqui, saíste da sua bendita inércia pra me prejudicar. O que é isso que se chama mundo, não tinha algo melhor? Temos banho e café frios, cerveja quente e sorvete derretido. Não dava pra inverter, precisava ser assim? Isso é lá coisa que se faça a alguém maldita cegonha? Vá se fuder, vá se fuder, vá se fuderrr! Na última repetição gritara sem querer naquela rua, ouviu a sua própria voz e também ouviu os passos á frente diminuírem. Muitos pensamentos voltaram, pensava na sua voz, tom, velocidade, pensava no que dissera, pensava nos seus últimos passos, tentou adivinhar onde estava sem olhar e não se lembrava de nada naquele exato instante. Novamente apreensivo hesitou em levantar os olhos imediatamente, mais uma vez perguntando a si mesmo como chegara até alí e o por que de estar assim. Como quem está distraído, na verdade entorpecido, olhou primeiro aos lados e á frente chegou a ver o pedestre que olhara para trás tenso, desconfiado, apressado, irritado e curioso. Quando não esperava, estático e sem reação, passou por ele dois jovens conversando que dominaram a cena de rua deserta de madrugada, horário desconhecido, com sorrisos largos rápidos, imediatos e diretos conversando apressado e seguros de si, guardou estes sorrisos e identificou um ponto de ônibus a dois quarteirões dalí, já enxergava adiante e foi em direção ao seu álibi perfeito, nesta fuga contra a civilização, o ponto de ônibus. Enquanto andava, ia pensando ou nunca deixara de pensar. Pelo ponto todo mundo passa, chegam, vão, despedem, encontram, esperam, fazem esperar, lá todos são suspeitos e insuspeitos, é a transição, a qualquer hora é o ponto de partida e chegada, não é como sentar na calçada, não é como não fazer nada, é como estar 'andando parado' pois estar alí é querer andar, é querer chegar. Chegou. Sem querer, parou de pensar, quase adormecendo e quase acordado lembrou, nunca esqueceu, amor.