31.10.07

vivo.
tanto que me contesto
de alguma forma

intenso,

.. paralelo a toda virtude odeio o aspecto limitado das palavras e a eterna insatisfação de não conseguir dizer o que sinto
como se tudo coubesse em uma palavra
como se houvesse apenas uma forma de nada
como se isso que sou se bastasse em palavras
como se estivesse de passagem a mudar coisas despercebidas,
ou se minha consciência fosse todo o mundo que vejo

sei que não é isso,
apenas poesia
mas não sei,
poesia qualquer

Amo.
que não sei o seu contrário
tanto que desgastei o verbo,
e mais uma vez perdí a sorte,
o medo do mundo,
e o medo de errar.






29.10.07

Remédio para a alma,
.. como quem espera nuvens,
procurava entre as opções coloridas fora de ordem ..
Você não viu, mas se dissesse lhe entregaria.
E lá se vão mais três meses pela janela
pra não jogar outros dez anos fora..
Preciso ir à alguma guerra pela paz,
depois voltar e morrer de velhice.
Parei de fumar temendo o futuro,
depois perdí o sono e o medo da morte.









clique na foto

25.10.07

Freak Folk

"A guerra acabou se você quiser" - John Lennon

"Ouvi alguém dizer que a guerra terminou hoje, mas todos sabem que ainda há. Nossas mães-terra e mãe-mar. Veja o que pensamos: É simples, não queremos matar" - Devendra Banhart

Naturalmente enquanto escrevo esta resenha ouço trechos do disco (foto acima) [aqui] que mudou um pouco a história da música 'artesanal' recente, e exatamente neste disco que se realiza a expressão do novo naturalismo na música popular contemporânea, digo 'naturalismo' assim mesmo em português e não 'naturalism' como podem imaginar. Apesar de ter surgido recentemente lá fora, no exterior, o movimento tem raízes brasileiras e até tem lá sua representante recente a paulistana Cibelle - que tocará este ano no Tim festival ao lado de nomes como Bjork e Arctic Monkeys - e ainda Rodrigo Amarante do Los Hemanos que participou do último disco do pai do freak folk Devendra Banhart, fã assumido de Caetano Veloso.

O álbum é o Vetiver da banda de mesmo nome que reunia nomes como Devendra Banhart, Alissa Anderson, Jim Gaylord e Andy Cabic, com as participações de Joanna Newsom, Hope Sandoval e Colm O'Ciosoig (dos My Bloody Valentine), estes depois se juntariam a outros nomes que hoje da 'New Weird America' - novos esquisitões da américa - como Nick Drake, Vashti Bunyan e Donovan (que hoje descobrí quase foi o vocalista do Led Zeppelin).

Curiosamente cheguei a este conceito de música após uma faísca de idéia que tive ao assistir um documentário sobre hip hop que não me lembro bem o nome, mas entrevistava o Mano Brown dos Racionais MC's que contou que disse para o Seu Jorge que ele deveria 'levar esse violão pro morro, pra subir o morro.' Esta frase abriu em mim uma nova percepção, o da luta de classes na música. Aqui, passados a 500 anos de colonização dois dos grandes artistas nossos buscando saídas reais para questões necessárias, a necessidade de cultura. Paralelo a isto: forma x função.

Me lembro de me sentir sempre frustrado quando aos 13 anos eu era fã do Iron Maiden e nunca teria a minha guitarra e aparelhos de última geração como eles. Como poderia imitar aqueles solos com pedaleiras cheias de botões em um palco enorme cuspindo fogo para todos os lados? Percebí que a realidade do Iron Maiden não era a minha, percebí que o meu mundo era diferente do da televisão e que o único intrumento a que eu tinha acesso era mesmo o meu humilde violão, ainda assim só depois dos 18 anos. Assim, descontruí todos os paradigmas e passei por toda a euforia do Alice In Chains, Soundgarden, Nirvana e Pearl Jam achando ter sido contemplado pelos acústicos que vieram aos montes (o do Alice pra mim foi o melhor, o do Nirvana o mais expressivo), ao menos em parte por um arrojo menor por mais expressividade. O grunge pra mim foi o meu punk.

O folk me agrada desde a sua própria tradução literalmente folclórica e pela relação 'forma x função' era um som que eu poderia fazer, mas uma fórmula que achava estar praticamente esgotada, foi se tornando para mim novamente uma arte menor no fim do século. Até que recentemente o freak folk como movimento atual banalizou os arranjos e adotou pitorescas vozes até cantando errado, se preciso fosse, moderniza a velha fórmula voz-e-violão, quando se achava que não havia nada além do grande Bob Dylan, ganha força pelas mãos da crítica e pelo público índie, alternativo e o legitimei ao saber que grande parte da idéia saiu daqui mesmo do Tropicalismo; Mutantes, Caetano, Secos e Molhados, Novos Baianos, Tom Zé.. etc. Sobre o Tropicalismo poderia falar mais e mais, assim como eu diria da semana de 22, seu antecendente ancestral e provedor da cultura nacional.


Não se sabe o que seria se nomes como Renato Russo ou Raul Seixas estivessem vivos o fato é que por aqui não há grandes novidades muito além de um Los Hermanos em recesso ou um Vaguart forçado mais freak do que folk.

Creio que a maior falta que esta atual geração hippie faz é de uma politização maior como foi no fim da década de 60 pela paz. Se bem que ainda temos um Devendra a plagiar Lennon e conter um pouco deste vazio da modernidade onde quando alguém que flutua em frente à Casa Branca não mais é um manifesto pela paz, mas uma propaganda de seu show em uma casa de espetáculos como tantas outras do mainstream cobrando ingresso, como nos verdadeiros espetáculos freak.

Em relação aos 'antigos hippies' falta um engajamento maior contra a guerra e um senso crítico mais forte, mas sabemos que se nem toda loucura é genial ao menos nos faz pensar, talvez, agir mas com certeza nos faz sentir bem.
No mínimo Freak Folk contra o baixo astral. Talvez seja isso.

Por fim, o naturalismo é em parte a espécie de neo arcadismo experimental á qual estávamos esperando, ou pelo menos eu, sem nenhum barulho para dizer a que veio mas aí está pelo menos a aglutinar idéias alternativas á grande ordem musical. Muito mais político do que politizado, nem mesmo este conceito de naturalismo exclui outras formas de manifestações seja guitarras ou mesmo artifícios como palco já que o natural sengundo o próprio Devendra - o nosso John Lennon - é a inclusão do todo e de tudo inclusive do plástico que também veio da natureza, é uma nova percepção que contemplam ao menos em parte ao mesmo tempo uma organicidade pelo meio ambiente e o meu humilde violão, sem pedais cheios de botões ou palcos que cospem fogo.




..

24.10.07


.. something Woody Allen

Nem sei muito o que dizer novamente, depois do 'samba do niilismo', peguei esta síndrome de Woody Allen que me custa passar. Estas letras pequenas em arial são tão práticas que em um instante eu poderia escrever mais uma frase de impacto antes de terminar este texto. A verdade é que tomei uma decisão um tanto quanto muito drástica na minha vida, a de que nunca mais tomarei decisões drásticas na minha vida.



..

.. ainda Woody Allen


Uma das melhores coisas que inventaram pra mim foi a memória seletiva. Como seria difícil conviver com a dor que foi tirar a primeira nota vermelha em matemática na oitava série e só por causa de meio ponto. Sou daquelas pessoas que tropeça nos próprios pés quando está apressado, atrasado ou atrasado e apressado, e ficar meio no ar toda vez que dou um passo é algo que eu deveria mesmo esquecer. E, e, e, e.. Entre todas as besteiras que eu disse, nada além da média, mas que em mim têm um efeito muito maior eu prefiro esquecer de todas. Por isso me tornei tímido. Nem me lembro quando, mas não deter o domínio da razão e perder qualquer possibilidade de influência é algo que me atrai ao sentido oposto. Dizer que tímidos são egocêntricos ao achar que todo mundo esteja nos vendo ou pensando no que fizemos ou não, é um reducionismo barato mas também verdadeiro paradoxo visto que ás vezes preferia não existir. Tenho mais vergonha de falar para uma pessoa só do que para uma multidão, aliás me dou muito bem com a multidão, assim me tornei uma espécie de tímido paranormal, mas ao menos útil, e por isso fiz um blog para me expor ao ridículo todos os dias para quem quiser ver, embora isso me faça muitas vezes inventar outros mundos pra me refugiar, o que dá muito trabalho se até Deus descansou no sétimo dia. Tenho várias teorias, entre elas a de que existem pessoas que inventam muitas teorias para que ninguém as perceba atrás de suas idéias. Tudo bem, que este discurso vazio e inoperante me parece o de um adolescente que deixou o sorvete cair e contempla o chão. Portanto vocês podem dizer o que quiserem mas eu não quero fazer a tarefa de casa hoje, não quero comer verdura, nem tomar banho na água fria, prefiro apenas jogar videogame o dia todo!





.. like a Woody Allen


'Monólogo ou narração? O que vale é o sentido'. Disse assim perguntando como se soubesse a resposta sobre si mesmo e respondeu como se não estivesse certo se ainda era isso. 'Mas qual sentido?'.

Disse longamente alguma coisa que não lembro agora em um largo sorriso como se preenchesse um vazio eterno de um tempo dilatado e resumisse outras palavras com um olhar sorridente tentando evitar o que não precisava ser dito. Pausadamente, voltava agora, olhando para os lados como quem distrai a si mesmo tentando desviar que pensava no que ia falar -, '..fique á vontade, não repara a bagunça da casa, permaneça em transe..' - declinando a fala até interromper, procurando alguma informalidade no ar, pega um livro, solta o livro e pensa: 'por que eu disse permaneça em transe? Não era pra dizer isso'-. Mas continua e pensa que se continuasse falando, esta frase solta talvez se dissolvesse no ar: '-Aceita café, chá, bolo, bolacha, biscoito, chocolate ou a chave do meu coração?' .. Vai até o som, liga qualquer música e continua. Por sorte era uma boa música, mas antes disso pensa novamente: 'porque eu disse a chave do meu coração?'.. Teve uma idéia: sorrir. Foi sorrir, mas demorou tanto que ela achou engraçado. Ele sorriu, ela sorriu (ah, alívio..). E percebia que teria de falar mais e mais, cada vez mais displicente pra dissolver mais esta que deixara escapar, sorte que ela estava distraída e feliz. Pensou como ela é tão linda sorrindo e também pensou em mostrar logo algo que ele escreveu naquele dia e dizer que é inovador, algo como: 'Se achar de se levar por estas linhas tortas pretenciosamente displicentes..' - mas não disse, pensava em tudo, testava outras palavras a contornar o que deveria dizer e enquanto dizia outras coisas ensaiava sozinho como dissolver as palavras mais fortes. Sua pretensão maior, ter a companhia dela pelo tempo. Mas não sabia dizer, também não sabia que não precisava explicar, até tinha palavras, várias delas, mas nenhuma combinava, leves ou forte demais para aquele momento, o certo é que não conseguia achar o tempo certo. Ir além, este caminho maior, e é tão fácil seguir.. O sublime, do olhar lúdico que fita e quase nem vê, me diz qualquer coisa da diferença plural das coisas loucas e atravessar a linha do limite a que somos desenhados. A loucura que é voltar-se contra o condicionamento dos padrões, esquecer as fórmulas e se reinventar é saber da convenção abstrata de símbolos comportamentais ditados, portanto frágeis.. Por esta maioria determinada, comemos com colher e garfo, ocidente de exércitos que dominaram esta região há meio milênio, uma maioria que define comportamentos, na verdade, uma minoria que domina idéias em um tempo-espaço qualquer, e 'por acaso' aqui. Vejo os loucos com o otimismo de quem vê onde achar respostas sem precisar se explicar. Absolvição da culpa e liberdade, uns não sabem, renega que não ter asas signifique fincar os pés no chão. Mesmo que sobre o papel ou tela, as várias formas de expressão nos dizem mesmo quem somos, a extensão de nossos braços e o alcance dos olhos. Natural escapar instintos e por decreto, escrito em nuvens, se deixar voar. Disse coisas mais ou menos assim só que com outras palavras. Desculpando-se por falar demais; dizia que era raro isso, desta vez já estava sentado tentou tirar algum pretexto do bolso - como se precisasse de um - e a viu olhando-o, percebeu que ela o via com um carinho compreensivo de quem já sabe o que vê desde quando longe e o absolve do ridículo sob desculpa do carisma.
Pela última vez pensou que tinha ensaiado a tarde toda em frente ao espelho e nada do combinado havia acontecido, mas tudo estava dando incrivelmente certo de certa forma, redundante, mesmo assim. Finalmente consegue parar de pensar no presente. '- Certa vez ví um filme..' Gestos leves e inconscientes de ambos quase combinados, - a câmera se afasta, não há mais áudio, entra uma música qualquer - bocas falando sugerem que o assunto se tornara agora margem sob qualquer pretexto de sorriso.



23.10.07



esqueça o esquadro
ao ver o quadro,
importa mais
o sorriso da Monalisa











Enquanto escrevo aqui, lá fora céu nublado, pessoas esperando ônibus mas sobretudo pessoas apressadas, ocupadas, entediadas e outras nem tanto.. Aqui dentro dois dos quatro elevadores estão quebrados, não faz muita diferença já que parei de fumar. Engraçado que eu nem havia pensado nisso, além de contribuir emitindo menos gás carbônico na estratosfera, também economizarei mais energia dos elevadores que não irão me descer e subir. Hum, como se fosse tão impactante assim.. Pois bem, estou evitando falar de mim e já falei. Após o 'samba do niilismo' descobrí que decididamente não sei falar de mim ou quando falo mostro meu lado humano, demasiado humano e como outros me desminto em sucessivos contraditórios ou me perco em detalhes menos importantes. Mas como não? Se logo que começo a pensar em outras coisas começo a falar de elevador, parar de fumar e pessoas em ponto de ônibus, como em histórias de dormir? Eis o contraditório, se não posso me questionar. Então vamos falar sobre isso. Escrever sobre si mesmo, não é lá muito fácil mesmo, mas não escrever também pode ser impossível visto que o mundo que vejo parte da minha percepção do que significa tudo isso, logo falo de mim também. E a esta altura já não temos nenhum leitor interessado.. Tudo bem, vamos para o faz-de-conta e ninguém perceberá nenhuma diferença: os mais atentos verão esse bloco de palavras e dirão: 'olha, blog atualizado'. Que bom, olha essa foto.. Então, e é por isso mesmo coloco essas fotos diferentes aí que é mesmo pra distrair o primeiro que ia criticar. rsrs Me lembro que quando criança a primeira coisa que eu queria saber de um livro é se tinha 'figuras'. No fundo mesmo todo mundo quer o bem comum, mas ninguém se importa muito, estão todos ocupados, inclusive eu que guardo estes minutos pra conversar comigo e com quem ainda está aqui. E a tempo, pra não dizer que não falei, que conste em ata que até que estou feliz, não é o auge da minha expressão literária mas eu me sinto bem assim.



O Silêncio das Sereias
- Franz Kafka

Para se defender das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e se fez amarrar ao mastro. Naturalmente - e desde sempre - todos os viajantes poderiam ter feito coisa semelhante, exceto aqueles a quem as sereias já atraíam à distância; mas era sabido no mundo inteiro que isso não podia ajudar em nada. O canto das sereias penetrava tudo e a paixão dos seduzidos teria rebentado mais que cadeias e mastro. Ulisses porém não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido coisas a esse respeito. Confiou plenamente no punhado de cera e no molho de correntes e, com alegria inocente, foi ao encontro das sereias levando seus pequenos recursos.

As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante - que tudo arrasta consigo - não há na terra o que resista.

E de fato, quando Ulisses chegou, as poderosas cantoras não cantaram, seja porque julgavam que só o silêncio poderia conseguir alguma coisa desse adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses - que não pensava em outra coisa a não ser em cera e correntes - as fez esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses no entanto - se é que se pode exprimir assim - não ouviu o seu silêncio, acreditou que elas cantavam e que só ele estava protegido contra o perigo de escutá-las. Por um instante, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semiabertas, mas achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis em torno dele. Logo, porém, tudo deslizou do seu olhar dirigido para a distância, as sereias literalmente desapareceram diante da sua determinação, e quando ele estava no ponto mais próximo delas, já não as levava em conta.

Mas elas - mais belas do que nunca - esticaram o corpo e se contorceram, deixaram o cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam as garras sobre os rochedos. Já não queriam seduzir, desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses. Se as sereias tivessem consciência, teriam sido então aniquiladas. Mas permaneceram assim e só Ulisses escapou delas.

De resto, chegou até nós mais um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astucioso, uma raposa tão ladina, que mesmo a deusa do destino não conseguia devassar seu íntimo. Talvez ele tivesse realmente percebido - embora isso não possa ser captado pela razão humana - que as sereias haviam silenciado e se opôs a elas e aos deuses usando como escudo o jogo de aparências acima descrito.





22.10.07


'A nossa pálida razão esconde-nos o infinito.'

- Arthur Rimbaud
o samba do niilismo

pisar em sombras, esquecer o futuro,
enterrar nostalgias, aprender com erros,
esquecer o caminho de volta e voltar,
acreditar que nada é sempre e acabar,
rejeitar o perdão, desejar o mal menor
e esquecer de tudo, do sempre e do nunca.

saber,
que tudo é permitido,
que há lágrimas debaixo do guarda-chuva,
que estão olhando para o mesmo céu,
todos os erros já nascem perdoados,
que eu nem sei o que estou dizendo.

não há idéia que eu possa entender
e não faz sentido dizer o que sinto







Pretensão seria escrever e deixar o dia passar, ou não pensar nos outros dias que passaram em branco, pensar nas noites em claro, preferia esquecer a cometer injustiça qualquer, talvez. Umas noites passaram por mim sem ver ou mesmo eu passei por elas sem me ver. ..E pensar que nem comecei, e talvez eu nem saiba mais o caminho agora. Preferia falar do que não sei, inventar uma nova idéia, talvez, calcular distâncias inatingíveis, pensar daqui ao céu subindo com os olhos, das pequenas idéias e invenções que já nascem esquecidas, na transição e melancolia do caminho de volta, da cumplicidade das frases infelizes, de meus calos e cicatrizes.
Até gostaria, mas nunca digo o que sinto, ou quase.. ás vezes até tento mas definitivamente eu não sei.. Sentir é tão vasto que ultrapassa qualquer alfabeto e se domesticasse sentimentos não saberia escrever. Não que o que eu escrevo seja isento de sentido, sonho ou sentimento, mas busca um caminho tangencial á própria razão. A lógica que se revela é justamente margial ao que diria se tivesse a intenção de demonstrar diretamente toda a atualidade daquele momento em detalhes. Digo isto sem ouvir, faço isso sem pensar, exatamente por não saber e enfim. Entre tantos acordes os que descansam agora aos pés da montanha de silêncio ou ensaiam uma improvável volta como música incidental, acidentalemente. Esqueça, não importa mais o acabamento e a velocidade na direção do caminho, a vida é este grande rascunho escrito agora. Até poderia voar, mas eu não sei.






Universal


este é o próximo século
onde os universais são livres
você pode achá-los em qualquer lugar
sim, o futuro foi vendido
toda a noite em que nós fomos
para as músicas de karaokê
como nós gostamos de cantar sozinhos
com as palavras erradas

isso realmente realmente realmente pode acontecer
sim isso realmente realmente realmente pode acontecer
quando os dias parecem passar através de você
apenas deixe-os ir

ninguém mais está sozinho
satélites estão em todas as casas
sim, os universais estão aqui
aqui para todo mundo
tudo aquilo que você lê
diz a sua sorte de amanhã
bem, este é o seu dia de sorte'

- Blur

perdendo a fé, a razão, e a paciência
perdendo a voz, os óculos, e os dentes
perdendo a vergonha, espaço, e o tempo
perdendo o medo, perdendo a rima ..

.. pero sin perder la ternura jamás

19.10.07

quando dizem fim de século pra nós, pras estrelas é o fim de semana


livro
violão
café e
televisão

Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo o nosso vazio.

- Khalil Gibran, poeta libanês



















'Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesmo, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!'

- Eça de Queiroz


Cântico IV

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Cecília Meireles


17.10.07


Abbey Road?

I am Sam, Uma Lição de Amor




Invenções pra peixinho de aquário

Bloco de notas sobre o vento é esquecer o número do próprio telenone, é escrever um poema na areia e aceitar que seja apagado, que esqueça, é aceitar o esquecimento, é aceitar não ser o primeiro e se levar menos à sério. Cartas para o futuro não é nada especial, pode ser espacial, é a esperança de ser lido, é a data de aniversário, é a fé no fim do mundo, é a certeza que o instante existe mesmo na intervenção extemporânea e é a crença de que o tempo irá passar no próximo segundo. Música pra fechar os olhos é sorrir junto, são amigos sorrindo, são como adultos ouvindo valsa como se fosse música de ninar pra dormir, é ter como remédio o placebo, é o fim da solidão por um instante ainda que poderia voltar, olhar nostálgico mas nem tanto e nem esta a palavra, que no dia seguinte você estará só por um tempo e deve entender isto; que as pessoas precisam crescer e você poderá ficar sem sorrir por um tempo, mas se quiser poderá vê-los novamente nos fins de semana e rir das mesmas piadas sem graça novamente e novamente. Não faz sentido, tudo bem.







Não consigo dar um passo á frente se não for a leste
Letárgico, estático, sonâmbulo, nonsense, displicente
Eufórico, metafórico, contraditório, nervoso, doente
O contrário do oposto de tudo que eu não imaginava
Preciso me distrair, preciso de um banho de chuva
Preciso ver o sol nascer, preciso de um pouco de tudo
Preciso de respirar mais, preciso de calor humano
Preciso de atenção, só não preciso de supermercado




Sobre o Vento..


Nascí em Janaúba, na terra do vento mas talvez tb da liberdade
pois havia muitos quilombos, Gorutuba, aos pés da Serra Geral
sou neto de 'seu' Zeferino que vem de Zéfiro, Zephyros ou Zéfir
Deus grego do vento do oeste, filho de Eos (a aurora) e Astreu.





16.10.07


.. que no peito dos desafinados

Quão banal e contraditórios são os sonhos e sentimentos de felicidade, de rimas fáceis que não combinam nada do clássico e do moderno, de desejos mesquinhos e egoístas como amar e querer ser amado. Simples e ridículo, passar a vida a conjugar verbos no presente, no plural, e expor o quão normal, comum e pitoresco eu preferia ser, a ter a glória dos grandes heróis. Quão ridícula a humanidade, somos patéticos em volta de desejos. Mais ridículo é quem não, nunca, escreveu cartas de amor. Quão ridículo prefiro mil vezes ser.

'Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.' *
(* Álvaro de Campos/ pseudônimo de Fernando Pessoa)




Não confesso pecados, prefiro não tê-los.
Parei de fumar e não vejo mérito nisso,
nem deveria ter começado. Apenas isto.
Não tenho mais tanta pressa, mas hoje
vou bem mais longe. Poesia é uma reza.

Ocidente Adolescente

Respirava inconstante como quem distrai o silêncio, como bateria de jazz que não quer marcar tempo algum, os ombros que balançavam lado a lado em pendentes braços de mãos fincadas no bolso, olhava para o chão e podia ter a certeza que era ele todo alí em uma única sombra com membros destacados do corpo em contratempos revezava entre a velocidade e o improvável equilíbrio entre joelhos e cotovelos. Entre detalhes improváveis e generalidades espaciais tentava dispensar o que não lhe servia concentrando nos limites físicos e simbólicos de si mesmo. Olhos inconstantes não fixavam em nenhuma paisagem como se já houvesse passado por alí mais de algumas vezes e caminhava no meio da rua como se soubesse que nenhum carro alí passaria, se assim sorte seria; seria mais cedo e mais tempo teria, se bem que o tempo não passava. Precisava de um pouso insuspeito, lhe daria um retrato distraído, algo que lhe ocupasse as mãos e não lhe imprimisse culpa ou suspeição de si mesmo, não conseguia pensar em mais nada e ainda assim todas as possibilidades lhe povoava a cabeça. Mais uma vez olhava para si, ainda cabisbaixo, e pela primeira vez reparava qual roupa estava vestindo, isso raramente lhe fazia tanta diferença, conferia se alguma cor diferente lhe havia acompanhado, se o sapato arrastava algum estilhaço ou se não deixava nada para trás, mas se lembrava que evitava estas coisas mesmo antes quando escolhia a roupa, aquela que lhe desse menos trabalho em situações mais diversas imagináveis, tudo bem, não importava agora, estava imerso e precisava voltar á tona. Se ao menos soubesse a hora, pensava e pensava novamente no trajeto que fizera, se dera muitas voltas, quantos banheiros entrara, quantas pessoas perguntava as horas e haveria de perguntar mais uma vez, quantas pessoas conhecidas viu na rua e como eram as desconhecidas. Demorava mais e vez por outra pensava em sentar em algum lugar, mas o que diria se lhe parassem o vendo alí? Essa pergunta lhe roubava alguns suspiros, suava e nem percebia, tirava as mãos do bolso e vez por outra fingia achar alguma coisa no chão, mantendo a provável pressa. Não se lembrava mais quem tinha visto, tentava não perder a linha de pensamento e quiz chorar quando pensou que outros que ele não via poderiam vê-lo, parecia difícil dominar a situação. Não conseguia imaginar se seria melhor surgir ou se esconder, por isso andava em semicírculos pelos quarteirões esperando que a sorte lhe encontre mas nem tanto. Voltava ao centro já pela terceira vez, tentava eleger os principais aspectos a vigiar, tentava revisar todas as possibilidades e variáveis, tentava saber se fazia frio ou calor, pensava se isto era o mais importante naquele momento ou não e pensava novamente quando tentou atravessar a rua e voltara para trás, quando encarou o relógio de um transeunte atrás das horas e foi ignorado pensou que estivesse com uma aparência diferente ou semblante variado, mas quando olha em um retrovisor de carro a imagem era quase sempre a mesma, não dava para saber pois pelos lugares que estava andando sempre as luzes lhe eram indiretas ainda a imprimir na fronte o reflexo do espelho. Pensou se era frio ou calor, penso que estava no meio de uma estação e outra, pensava se deveria tirar o blusão, tentava se lembrar se as pessoas estavam com roupas longas ou curtas mas ainda assim lembrou que nunca reparava roupa de ninguém, enxergava mais as pessoas que estavam dentro delas mas isto agora não lhe servia de nada. O que mais queria neste momento era sair dalí, recuperar o semblante de outrora, quando não precisava pensar tanto, encontrar um lugar deserto, seco e seguro longe de pessoas. Neste momento sentiu uma forte raiva de toda a humanidade e preferiu ser outra coisa ou não ter existido a ter que passar por isto. Rapidamente pensou, triste, que seguramente estava em um dos piores momentos de sua vida e que sempre odiou não ter alternativa, escolha. Pensava como quem grita consigo: O que é pior, morrer ou viver assim? E com a morte, ter um final tão indigno justo no pior momento de sua vida. Pensou em tudo que passara, pensou sobre como começou , como chegara até alí, todas as pessoas e diálogos que se passaram retroativamente durante o dia, a semana, o ano, pensou porque tinha nascido e se teria mesmo valido a pena e percebeu que não conseguia ordenar os pensamentos como antes, que estava influenciado pela situação, que mudava de assunto consigo mesmo quando pensava algo mais profundo, que perdera o domínio sobre seu pensamento, que não conseguia se lembrar mesmo de muita coisa, que precisava descansar pra entender quando decidiu algo que o levava a isto. Estava dominado pela raiva, pensava em várias coisas ao mesmo tempo e quando vinha a vertigem não conseguia pensar em mais nada, sabia que um sonho não era e sentia que estava acordado, não sabia onde estava mas não podia parar. Por sobrevivência, encontrava forças que não tinha, evitava pensar em si mesmo, talvez assim. Pensou que poderia se enganar a tentar compreender que estivera em algum momento buscado algum sentido por um sentimento pelo menos que lhe dê algum sentido, pensava em sonhos mas não era esta a palavra, nem mesmo conseguia pensar em palavras, pensava apenas e mais nada. Novamente á tona, começava a perceber que era um ciclo e procurava aceitar a falta de lógica em meio ao caos pois talvez assim poderia obter mais consciência para encontrar um bom lugar. Andava, pensava, andava. Sentia uma enorme culpa por não compreender o que se passava e a esta altura já havia passado pela segunda vez naquela rua não podia mais desviar os olhares e deixou escapar o medo do medo contra o olhar de alguns viventes daquele dia, um que passava seguiu á frente. Quando tentava se lembrar que dia da semana era, também se condenava em ser parte do todo: perguntando onde estavam todos os preceitos morais, princípios éticos; cadeiras, mesas e quadros de escola; sinais, leis e manuais de sobrevivência em sociedade; esta selva, este laboratório desgraçado; que me empurraram guela abaixo a vida toda? Com tantas gerações e ainda não desenvolveram alguma tecnologia capaz de suportar a sua própria existência. Dizem que chegaram á lua e não entenderam que pessoas inocentes também podem passar por isto? Qual a lógica da complexidade humana em convivência pacífica se há tantos caminhos sem saída? Sem resposta, falando sozinho, decide pensar que pode se salvar ou pelo menos apenas salvar-se contra si mesmo: Absolvo todos os pecados do mundo se não tiveram opção de escolha, como quando acontece de existir e se encontrar nesta situação ter que cumprir algum destino e não tiver como fugir, correr, sair, escapar, nada. Quem com uma mão cria e com a outra condena, como quem cria ratos em laboratórios em uma situação idealizada, programada, sem saída? Conseguia organizar o pensamento, era um caminho e continuava: Se não há saída, se não tenho a quem me recorrer nesta ridícula cadeia alimentar humana, me entrego mantido o protesto contra o mundo, contra mim, contra esse céu e essa terra que fizeram, ninguém veio me consultar, não participei nem participo desta trama a não ser como isca do monstro que somos todos nós, este leviatã -que merda-, é no mínimo uma derrota universal estar em uma situação tão ridícula sem ter feito nada e pagar por estar vivo. Vida ou experiência grotesca, mal acabada, sem graça, trágica e infeliz? O que é isto que chamam de vida se não a consciência do lixo que somos, carregar todos os fardos de saber disso e ainda pagar? Se sou templo desta farsa destituo a existência, renuncio á dor e á esperança, entrego á vergonha. Se sou deles me odeio e odeio mais ainda quem foi o desgraçado que inventou a porra da cegonha vagabunda que trazem os bebês no bico.. Pensava estas coisas consigo mesmo e sofria por não encontrar saída e cada vez mais o tempo passar. As coisas se repetiam na sua cabeça como se dissesse tudo em eco e o que pensava sobre a cegonha acabara de lembrar, sem pensar arrancou do peito uma puta de uma gargalhada e foi a primeira vez que transmitiu um som. HAHA. Sentiu-se estranhamente feliz e isso lhe dava um enorme prazer e não hesitou: Cegonha desgraçada! Vá se fuder, vagabunda! Ninguém lhe chamou! Eu devia ter lhe dado uma porrada ao me trazer até aqui, saíste da sua bendita inércia pra me prejudicar. O que é isso que se chama mundo, não tinha algo melhor? Temos banho e café frios, cerveja quente e sorvete derretido. Não dava pra inverter, precisava ser assim? Isso é lá coisa que se faça a alguém maldita cegonha? Vá se fuder, vá se fuder, vá se fuderrr! Na última repetição gritara sem querer naquela rua, ouviu a sua própria voz e também ouviu os passos á frente diminuírem. Muitos pensamentos voltaram, pensava na sua voz, tom, velocidade, pensava no que dissera, pensava nos seus últimos passos, tentou adivinhar onde estava sem olhar e não se lembrava de nada naquele exato instante. Novamente apreensivo hesitou em levantar os olhos imediatamente, mais uma vez perguntando a si mesmo como chegara até alí e o por que de estar assim. Como quem está distraído, na verdade entorpecido, olhou primeiro aos lados e á frente chegou a ver o pedestre que olhara para trás tenso, desconfiado, apressado, irritado e curioso. Quando não esperava, estático e sem reação, passou por ele dois jovens conversando que dominaram a cena de rua deserta de madrugada, horário desconhecido, com sorrisos largos rápidos, imediatos e diretos conversando apressado e seguros de si, guardou estes sorrisos e identificou um ponto de ônibus a dois quarteirões dalí, já enxergava adiante e foi em direção ao seu álibi perfeito, nesta fuga contra a civilização, o ponto de ônibus. Enquanto andava, ia pensando ou nunca deixara de pensar. Pelo ponto todo mundo passa, chegam, vão, despedem, encontram, esperam, fazem esperar, lá todos são suspeitos e insuspeitos, é a transição, a qualquer hora é o ponto de partida e chegada, não é como sentar na calçada, não é como não fazer nada, é como estar 'andando parado' pois estar alí é querer andar, é querer chegar. Chegou. Sem querer, parou de pensar, quase adormecendo e quase acordado lembrou, nunca esqueceu, amor.

.. São palavras e com o mesmo peso de uma palavra, são apenas palavras, tão naturalmente contraditórias em si e tão maiores que nossos braços, embora precisem só da força de alguns dedos. Não sei, simplesmente não sei. Ninguém lê mesmo e se lesse não prestaria atenção. No momento, mais nada, vai além de mim e agora não penso muito nisso.

'Se um poeta consegue expressar a sua infelicidade com toda a
felicidade,
como é que poderá ser infeliz?' (Mário Quintana)




15.10.07

frente e versos sem rima
jogando cartas pela janela
nada sério, a não ser eu..
qualquer coisa me anima

.. finais felizes, universo infinito, saudações ao céu
Estou disposto a acreditar em tudo que me disserem

11.10.07

música para fechar os olhos

preciso não me levar muito a sério, apagar as pontas
analgésicos, dipironas, aspirinas e faz de conta, mas
preciso de mais amigos esquizofrênicos e sensíveis
preciso de amigos para o fim do mundo e jogar cartas
preciso de mais amigos que esqueçam o que eu digo
preciso de mais três dias bebendo cerveja o dia todo
baby baby, preciso aprender que não é assim, Boa N'8
Não importa o que você disser,
todas as palavras já foram ditas
Lennon, Lispector, Nietzsche
Dylan, Bukowski, Quintana
Os melhores da semana . .

Ouvindo conselhos de Bob Dylan, diz: - .. cara, se você quer mesmo saber o que eu penso sobre essas coisas da modernidade eu te digo, não queira saber, não queira mesmo. Há um buraco no telhado do mundo mas só irão procurar uma escada quando quando esta se tornar uma goteira, quando a chuva estiver chegando, quando os móveis tiverem mofos, quando precisa de rodo e não aguentam mais. Em situações normais ou vendem a casa passando o problema adiante e não será mais um problema a não ser que você seja esse novo inquilino e você passará a vida toda tentando se desviar da goteira a não ser que você mesmo esteja disposto a trocar a telha furada, mas elas se apoiam umas ás outras têm quase a mesma idade e passaram juntas pelas mesmas chuvas e não adiantará mais pra você mudar apenas esta telha, outra virá e outra e outra e cada vez com uma frequência maior e você terá que estar disposto a estar mais fora do que dentro da sua casa se não mudar o sistema, se não mudar o telhado. E só temos uma única casa, somos parte desta casa, somos esta casa, somos estas telhas, somos eu e você todos os dias tentando consertar os telhados, remendar estilhaços, consertar o passado até que viveremos só disso e esqueceremos do que haveria de vir. Tenho lido jornais e eles são todos iguais entre eles e todos os dias, esqueça o telhado, ele vai cair, as paredes também irão ruir. A resposta meu amigo está soprando no vento, renda-se aos céus e pense no futuro cuidando para que a casa se torne um belo jardim.

Um improvável método eficaz


Estou há 13 horas, 27 minutos e alguns segundos sem fumar cigarro, estou tentando parar de fumar cigarro e acho que vou conseguir. Estou há 13 horas, 29 minutos e alguns segundos sem fumar cigarro, estou tentando parar de fumar cigarro e acho que vou conseguir. Estou há 13 horas, 31 minutos e alguns segundos sem fumar cigarro, estou tentando parar de fumar cigarro e acho que vou conseguir. Estou há 13 horas, 33 minutos e alguns segundos sem fumar cigarro, estou tentando parar de fumar cigarro e acho que vou conseguir. Estou há 13 horas, 35 minutos e alguns segundos sem fumar cigarro, estou tentando parar de fumar cigarro e acho que vou conseguir. Estou há 13 horas, 37 minutos e alguns segundos sem fumar cigarro, estou tentando parar de fumar cigarro e acho que vou conseguir. Estou há algumas horas, alguns minutos e alguns segundos sem fumar cigarro, estou tentando parar de fumar cigarro e talvez eu consiga. Estou há alguns minutos e alguns segundos inventando esse mantra para tentar me convencer, e a vocês também, que estou há tanto tempo escrevendo tudo isso. Não estou escrevendo todo esse texto, na verdade copiei e colei, nem estou tentando parar de fumar cigarro, mas mesmo assim acho que vou conseguir.



10.10.07

Descubra sozinho/a o terceiro lado da porta e as janelas mudarão de quintal pra ver. Mesmo que digam que você não é, na verdade eles só querem que você acredite, não importa o que dizem, seja lá o que disser, eles apenas querem que você acredite.Acredite, esqueça, não há quem possa viver atrás da porta esperando alguém abrir. Esqueça isso: música ambiente imitando silêncio ou placebo literário sobre o nada. Você pode esperar um ou dois anos e as mesmas coisas voltarão a ser o que eram. Não escreva nada do que eu disse, seja lá o que for você esquecerá destas palavras. O erro é qualquer coisa fora do seu lugar que depois que passa volta com outro nome. Talvez, você pode perceber ou não, no final saberá que em quase todo este tempo, o tempo que nunca existiu era a única coisa que você tinha, digo tinha, a seu favor e você pode perceber ou não, mas na verdade você nunca esteve certo/a nem errado/a.





Algumas Variações Sobre Um Mesmo Tema


I

As vacas voam sempre devagar
porque elas gostam da paisagem.
Porque, para elas, o encanto único de uma viagem
é olhar, olhar...


II

Partir... tão bom! Mas para quê chegar?


III

O melhor de tudo é embarcarmos num poema...
Carlos Drummond, um dia, me pôs de passageiro num
.......................................................[poema seu.
Ah, seu Carlos maquinista, até hoje ainda não
......[encontrei palavras para agradecer-lhe...
Mas que longa, longa viagem será!


IV

E das janelinhas do trenzinho-poema
abanaremos para os brotinhos do futuro.
Ui, como serão os brotinhos do século XXIII,
.................................[meu Deus do Céu?
Pergunta boba! Em todas as épocas da História
um brotinho é um brotinho é um brotinho...


V

Tenho pena, isto sim, dos que viajam de avião a jato:
só conhecem do mundo os aeroportos...
E todos os aeroportos do mundo são iguais,
......................[excessivamente sanitários
e com anúncios de Coca-Cola.


VI

Nada há, porém, como partir na lírica desarrumação
....................................[da minha cama-jangada
Onde escrevo noite a dentro estes poeminhas com a
...................................................[esferográfica:
a tinta — quem diria? — é verde, verde...
(o que não passará, talvez, de mera coincidência)
- Mário Quintana





.. a julgar pela despedida parece longe, nem tanto assim, o tempo de um sono ou nove horas daqui. eternidade pra quem vive, abraçando o mundo. happiendings, há volta! sim, assim, nem sei - e eu acordado, esquecí, me lembro .. e saudade, lembro : banzo, a febre de ontem. nostalgia da modernidade, um amor pro futuro. fora o deserto lá fora, noites mal dormidas, poltrona torta me dói as costas, aqui deste lado. um copo, sem espuma e nostalgia, assim, tudo ao normal: em brasília dezessete horas. previsível fim dos tempos e nada a ver. corações e mentes os que cabem em um sonho, contando histórias de fugir de casa na cabeceira da cama pra dormir, com olhos querendo falar, sonham voltando pra suas casas num final previsível não se faz mais modernidade como antigamente. lá vai e lá vem, carros na rua sabem bem o que querem, as pessoas na calçada, eu sei, todos à galope na carroça da humanidade e o bem sempre vence no final!



9.10.07

"
você pode não acreditar nisto
mas há as pessoas
que passam pela vida com
muito pouca
fricção de angústia.

eles se vestem bem, dormem bem.
eles estão contentes com
a família deles.
com a vida.

eles são imperturbáveis
e freqüentemente se sentem
muito bem.
e quando eles morrem
é uma morte fácil, normalmente durante o
sono.

você pode não acreditar nisto
mas tais pessoas existem.
mas eu não sou nenhum deles.

oh não, eu não sou nenhum deles,
eu não estou nem mesmo próximo
para ser um deles.

mas eles
estão lá ...

e eu estou aqui."

- Charles Bukowski


sou finito, moro em um tempo-espaço, vivo. converso comigo e com os amigos. penso muito, penso que penso e também penso em nada. sinto saudade de quase tudo que conhecí, das pessoas que eu sei que eu falei e dos lugares. estive, vivo, tanta coisa e mais. antes assim, isso, do que não ter. mas porque um só lugar de cada vez? por que, eu, apenas um? nada não, só divagação.. pense nisto, se lembrar, não esqueça
hum, hum, hum, hum.
dois, dois, hum.
dois, dois, hum.


em um compasso de três quartos
como uma valsa pra dançar
(primeiros passos de volta)

como quem diz com graça
é hora de acordar

e só mais um pouco de sono
balbuciando:

hum, hum, hum, hum.
dois, dois, hum.
dois, dois, hum.
hum, hum, hum, hum.
dois, dois, hum.
dois, dois, hum.