a sandália já havia perdido parte da sola e o pé agora pisava direto ao chão, podia sentir o cheiro de carniça daqui. jogam para os caminhantes o que os seus cães já não querem mais. e sujeira vinha da alma, a maioria das pessoas carregava um peso existencial e uma constante rivalidade pela vida como se o extinto tomasse totalmente conta dos pensamentos mais elementares, um anão esfregando botas com um pano molhado, um cego tocando uma sanfona furada e uma cigana de cabelos pretos aproveitava a exuberância de seus seios para tomar mais alguns goles do vinho a mais que eles serviam sem deixar perceber que só estava alí. todas as manhãs demoravam começar, esperava há dias por isso, tanto pacientemente quanto impacientemente já havia passado por vários sentimentos e mudara de opinião muitas vezes de uma paisagem para a outra. o pior daqui é que a sede parece sedar parte da revolta que naturalmente teríamos de viver em um lugar assim.
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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
- Mário Quintana