1.2.08

hoje em dia nesta multidão faço tudo que posso que possa me arrepender depois, sem mágoa ou rancor de não ter errado mais. hoje em dia nesta multidão eu queria ser John lennon um minuto só pra me distrair, semi-proibido de desafinar e depois me arrependo. desculpe não sei mentir, mas ainda tento. eu queria ser você antes de você crescer, eu me via nos seus olhos vendo vitrines com doces e balas e eu esquecia de tudo neste momento. pj harvey não me daria razão, David Byrne me daria razão, e eu não precisava ser hype, in, cult, alt nem nada, eu estava na lama antes mesmo do ok computer, do verão sem sol, da invenção do fuso horário, da lei-seca, do microcomputador de bolso, dos relógios de parede de pulso, das blíblias digitais, do amor em prateleiras. eu seria tão diferente, esqueceria de respirar, não seria mais assim tão cético ou constrangido por viver, não teria esse ar de bom moço em areia movediça. se por um minuto eu fosse você gostaria de pensar menos no futuro sobre coisas que não têm conserto, tomaria mais cafés com muito açúcar. se eu fosse outro não saberia exatamente o risco de ser um só, eu faria uma música sobre isso e ninguém ia ouvir, gastaria tempo, vales-transportes e eletricidade para voltar atrás e invariavelmente sem chances ou disposição para mais uma noite perdida olhando rachaduras no teto, enfim eu ia querer ser mais eu depois disto e em seguida eu ia me arrepender de tudo e voltar pra casa sem nada nas mãos, nem uma história pra contar.

Um comentário:

Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

- Mário Quintana