8.11.07


Vinha ele. Passava por aqui raramente. Como nunca usara sua prerrogativa de morador do bairro para comentar algo cotidiano com nossos conhecidos sentíamos que tínhamos uma dívida com ele, que ele podia conversar e agente ia ouvir ao menos eu pensava assim. Mas ele nunca dizia nada, passava como se ninguém visse. Ninguém via mesmo, mas de tanto não ver, era assim algo desconhecido.

É que fui o primeiro da geração de crianças da nossa rua, éramos sete na minha época e víamos ele como uma interrogação ambulante que passava por alí, lógico que não sabíamos o que significava a palavra interrogação mas na prática era dono de grande parte do mistério do nosso pequeno mundo, até onde nossos olhos poderiam ver.

Vivia andando rápido, pensava longe quase falando baixo ou pensava em nada, olhando ora para baixo, ora ao alto como a contra gosto fosse encarar as pessoas, como se preferisse que fosse diferente alguma coisa, o certo é que não sabíamos nada sobre ele.

Nunca comentávamos com a nossa família, penso hoje, talvez porque ele era parte de um mundo que se passava do portão pra fora e era um dos únicos mistérios que tínhamos.

Quando entrei para o colegial já pegava ônibus no ponto lá perto de casa sozinho e com o tempo pela falta de assunto em uma rua completamente bucólica fui com o tempo obtendo um pouco de atenção dos mais velhos quando eles não tinham nada pra falar e o jovem mais velho que se mudava há sete anos pro final da rua me disse sobre ele e percebí que não éramos os primeiros a pensar sobre o que seria do cara da nossa rua.

De fato havia poucas novidades por alí e ao me falarem fui vendo que não éramos os primeiros a tentar descobrir, que ele já teve vários apelidos, mas que ele não sabia destes apelidos, dizem que ele emprestou um livro pro Antoniel perto da época do natal e perguntavam se tinha alguma coisa a ver com esta data, mas nunca mais também ele foi buscar. Antoniel era um adulto, amigo do meu pai, forte e ocupado e nunca preferíamos entrar no seu caminho portanto perguntar estaria descartado.

O fato é que como todos ele também ia ao mercado comprar coisas, ia sozinho como tudo que fazia, comprava estoques anteriormente planejados e ficava mais dois meses sem ir novamente. Tinha cara de fumante e um cheiro de madeira mas nunca comprava cigarros, dizia a menina do caixa que quase cresceu junto conosco. Pensamos nisso por um tempo, e depois de dois meses como uma primeira descoberta para a resolução de todas as perguntas ou um novo continente percebemos que era este o único ponto comum entre todas as pessoas, o mercado, ou a fome. Daí começamos a ter medo da guerra, talvez só ele saiba da hora de um confronto e fazia estoques aguardando o momento, pensamos nele abrindo uma lata de sardinha sob a luz de uma vela em um buncker debaixo da sua casa, todos nós escondendo das rajadas e só ele protegido. Nenhuma destas hipóteses se confirmava sendo que todo mês nunca chegava a guerra: ainda bem, pelo menos. E pela primeira vez descobrí o lado bom de estar errado.

Vieram as aulas e esquecemos por um longo tempo disso, mas quando tudo parecia estar acabado pescávamos conversas, umas aqui e outras alí e quando um sabia vinha contar aos outros no final do futebol quando estávamos cansados esperando a mãe gritar na janela a hora de tomar banho: Diziam que talvez ele seria um turco, que veio fugido da guerra, mas sabíamos que era primo segundo de Miguel e de Álvaro e sabemos que eles são lá do noroeste, então não poderia ser. Diziam que não pôde servir o exército que era filho único e que sua mãe morava no asilo, que foi o primeiro da rua a levantar uma antena da sua casa e todos víamos o alumínio acima lá como um objeto não identificado, pensamos até em contatos espaciais, ou talvez vampíricos ou mesmo com os outros parentes que também fugiram da guerra que talvez tenham ido pra Argentina ou Chile, algum país assim, longe, só que perto. Diziam que ele sabia falar outras línguas e de tanto falar com os estrangeiros, pela antena, talvez já tinha preferido esquecer o português. Dizia que foi o primeiro da rua a passar no vestibular, na época nem minha mãe sabia o que significava a palavra vestibular, o certo é que passou mais de três vezes e não terminou nenhum curso, mas que de tanto estudar que ficara louco, que não tinha com quem conversar, a não ser com os estrangeiros do seu rádio..

Estávamos tão mergulhados e já nem pensavámos no método e a invenção já superava qualquer coisa. Não me lembro mais quantas versões, até Judas ele já 'foi' em nossas cabeças, todas elas havia uma contradição. E por um momento, não me lembro quando, acabar de uma vez com tudo isso, era praticamente acabar com quase todo o mundo misterioso a que tínhamos acesso e o tempo a mais de aumentar a história para demorar um pouco mais de ir tomar o banho. Mesmo sem querer começamos a desconfiar entre nós mesmos sobre quem estaria mentindo um pouco mais mas isto nunca configurava um problema pois a cumplicidade era maior entre nós pelo interesse comum em brincar mais.

Nem me lembro desde quando vínhamos especulando todas as hipóteses e nunca nada, tudo isso já se tornara quase uma cultura da rua e não sei porque pensei pela primeira vez que talvez de alguma forma todos nós estivéssemos agindo errado este tempo todo, pois todas as versões progressivamente condenava-o mais e mais por não ser como a maioria das pessoas.

Se cada um de nós somos um ou mesmo se somos todos um só, também, em algum momento somos alguém que está só. Pensei sobre isso, que demorei perceber. Por um tempo esquecí até do ônibus, não pensei em nada e voltei a pensar. Me bateu uma tristeza sem motivo e me deu uma vontade de ficar calado, de não conversar com ninguém, de conversar comigo ou uma vontade de chorar, mas não chorei.



* ficcção.


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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

- Mário Quintana