30.11.07

I’m Not There

Prezado amigo, sinto não estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sinto não saber das notícias no seu momento, sinto estar distante e não estar aí. Apesar da aparência supérflua das palavras que insistem em parecer tristes sei que estas lhe farão sorrir um dia, que serão todas vãs e jogadas ao vento como as piadas sem graça que inventávamos sobre o nada sobre a nossa própria imbecibilidade umbigocêntrica no limite a que somos desenhados. Prometo não pegar muito mal, prometo um sorrir contente e almejo o ridículo de rir depois dessas coisas que passam. obrigado por tudo.


..

29.11.07

Friederich Engels:

'O repouso e o equilíbrio são sempre relativos, e só têm sentido e razão de ser em relação a tal ou qual forma concreta de movimento. Um corpo, por exemplo, pode achar-se à superfície da terra, em equilíbrio mecânico, estar, do ponto de vista mecânico, em estado de repouso; isso não o impede, absolutamente, de participar do movimento da terra bem como do movimento do sistema solar inteiro, assim como não impede que as suas melhores partículas físicas experimentem as vibrações provocadas por sua temperatura, ou que os seus átomos efetuem um processo químico. Matéria sem movimento é tão inconcebível como movimento sem matéria.'

'O movimento não pode, por conseqüência, ser criado ou destruído, como também não pode ser a própria matéria, e é a isso que a antiga filosofia (Descartes) se refere quando afirma que a quantidade de movimento existente no mundo é sempre a mesma. O movimento não pode, pois, ser criado; ele pode somente ser transmitido. Quando o movimento é transmitido de um corpo para outro podemos considerar que ele se desloca - ativamente - como causa do movimento, ou que é deslocado - passivamente - como efeito. Chamamos a esse movimento ativo de força e a esse movimento passivo de manifestação de força. É pois evidente que a força não pode ser maior nem menor que a sua manifestação, uma vez que o mesmo movimento se realiza em ambos os casos.'

(...) não existe repouso absoluto nem equilíbrio, incondicional. Cada movimento concreto, tende ao equilíbrio, e o movimento total suprime esse equilíbrio. Assim, o repouso e o equilíbrio são, onde quer que se encontrem, o resultado de um movimento limitado e concreto, sendo natural que esse movimento seja mensurável por seu resultado ou seja nele expresso, podendo ser restabelecido a partir dele, sob uma forma ou outra.'

'(...) A teoria mecânica do calor - segundo a qual o calor consiste em vibrações mais ou menos consideráveis de acordo com a temperatura e o estado de agregação das pequenas partículas fisicamente ativas (moléculas) dos corpos, vibrações essas suscetíveis de adotarem, em certas circunstâncias, qualquer uma das formas do movimento - a teoria mecânica é que explica o fenômeno, dizendo que o calor desaparecido realiza um trabalho, se transmite a um trabalho. Quando o gelo se derrete, a coerência estreita e firme das moléculas entre si, cessa e Se transforma, de um aglomerado coeso, numa dispersão total; quando a água se evapora, no ponto de ebulição, produz-se um estado em que as moléculas soltas não exercem mais ação sensível umas sobre as outras, dispersando-se, sob a influência do calor, nas mais opostas direções. Ora, é evidente que cada uma das moléculas de um corpo em estado gasoso encerram muito mais energia que no estado líquido e, neste, muito mais que no estado sólido. O calor retido, portanto, não desapareceu, mas apenas se transformou, adquirindo a forma da força de tensão molecular.'

'A teoria sobre a gênese dos mundos atuais, pela rotação das massas nebulosas, foi o maior progresso que a astronomia fez desde Copérnico. Pela primeira vez abalou-se a idéia de que a natureza não teria história no tempo.'
A Cidade do Sol

'(...) Por conseguinte, essa unidade não destrói a pluralidade, mas a fortifica pela união, não já de um só homem, mas de todos os estados e condições. É o que não obtém Aristóteles em sua república. Não é de uma só corda, mas de várias, que eles tiram a harmonia. Aristóteles não estabelece senão a discórdia, quando compõe a sua república de dois contrários. Nós, ao contrário, temos a união como um carme, uma vez que todas as coisas concordam entre se, ao passo que Aristóteles não faz senão compor o seu carme de dois pés contrários e discordes, como se mostrou no exame da sua república. A nossa é, pois, totalmente apostólica, quando estabelece a comunidade, não por prazer, mas por obséquio, como se vê em nosso diálogo.'

Tommaso Campanella

.. L'Être et le néant:
Essai d'ontologie phénoménologique


procuro os meus óculos. é um caminho distante entre o ser e o nada, tateando os corpos que estão deitados na sala, nunca sei o que me espera antes de minha mão alcançar. nesta hora penso em tudo que eu havia visto alí todos estes dias e grito contra os móveis fora de lugar. acerto na quina, não a loteria mas o joelho na esquina da escrivania tanto dói quanto me calo nesta luta silenciosa dos braços estirados ao espaço e a escuridão que é só minha.



..

23.11.07



..inédito pra mim, revendo velhos filmes. refazendo minhas canções, novas pra mim agora. alguém disse assim, digo algo parecido antes. Elliott Smith entenderia meu silêncio. aliás e afinal. na verdade quem não entenderia, se já o rompí tantas vezes? por que não 'te callas' pensamento? porque não é desta natureza que pensas. sou índio, além. talvez mesmo o contrário e o mesmo afinal em sua volta, e mais e mais e mais, até, sem querer, parecer o que pensa. não estou triste, estou feliz, aliás muito, mas sem dizer. que silêncio? deveria então novamente arriscar-me contra os limites de um quadrado? e as mesmas idéias fora de lugar, tanto cor quanto incerto. deveria cair da mesma árvore, mesmo sabendo da inércia a que o chão passivamente espera? a cortina se fecha porque estava aberta, assim como abre, mas poderia abrir mais e mais até o seu contrário, até romper com os paradigmas da parede que a sustenta. nem de mágica é a levitação, leviano. da afirmação assim como o seu contrário. de qualquer momento, em qualquer lugar. mesmo longe, o mesmo, agora, depois e depois talvez também. nada. sempre existiu o agora e o sempre a que nos resumimos sobre o tempo. mas dedico, assim você me vê. talvez agora de uma outra forma também. assim vê. mas me vejo e vejo. está tudo bem. estamos tão mergulhados até esquecer da superfície, mas no fundo no fundo tudo é quase a mesma coisa sendo os mesmos, partes da mesma fórmula fractal a que somos desenhados: tanto a flor quanto o seu inseto.



..


21.11.07

19.11.07

Soneto XVIII

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na eterna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

William Shakespeare

13.11.07

História da Eternidade
Jorge Luís Borges

I

Na passagem das Enéadas que pretende interrogar e definir a nature­za do tempo, afirma-se que é indispensável conhecer previamente a eter­nidade, que — conforme todos sabem — é o modelo e arquétipo daque­le. Esta advertência preliminar, tanto mais grave se a julgarmos sincera, parece aniquilar toda a esperança de nos entendermos com o homem que a escreveu. O tempo é um problema para nós, um tremendo e exigente problema, porventura o mais vital da metafísica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança. Lemos no Timeu de Platão que o tempo é uma imagem móvel da eternidade; e isso é apenas um registo que a nin­guém distrai da convicção de que a eternidade é uma imagem feita com substância de tempo. É esta imagem, esta tosca palavra enriquecida pelos desacordos humanos, que me proponho historiar.
Invertendo o método de Plotino (única maneira de aproveitá-lo) começarei por recordar as obscuridades inerentes ao tempo: mistério metafísico, natural, que tem de anteceder a eternidade, que é filha dos homens. Uma destas obscuridades, não a mais árdua, mas também não a menos bela, é a que nos impede de precisar a direcção do tempo. Que ..ui do passado para o porvir é a crença comum, mas de modo nenhum é mais ilógica a sua contrária, a que foi fixada em verso espanhol por Mi­guel de Unamuno:

Nocturno el rio de ias horas fluye
desde su manantial que es el mañana eterno...

Ambas são igualmente verosímeis — e igualmente inverificáveis. Bradley nega as duas e avança uma hipótese pessoal: excluir o futuro, que é uma simples constrição da nossa esperança, e reduzir o «actual» à agonia o momento presente desintegrando-se no passado. Esta regressão temporal costuma corresponder aos estados decrescentes ou insípidos, enquanto qualquer intensidade nos parece marchar sobre o porvir... Bradley nega o futuro; uma das escolas filosóficas da Índia nega o presente, por considerá-lo incaptável. «A laranja está para cair do ramo, ou já está no chão», afirmam esses estranhos simplificadores. «Ninguém a vê cair.»
Outras dificuldades propõe o tempo. Uma, porventura a maior, a de sincronizar o tempo individual de cada pessoa com o tempo geral das matemáticas, tem sido largamente apregoada pelo recente alarme relati­vista, e todos se lembram dela — ou lembram-se de a ter lembrado até há pouquíssimo tempo. (Eu recupero-a assim, deformando-a: Se o tem­po é um processo mental, como podem compartilhá-lo milhares de ho­mens ou mesmo dois homens diferentes?) Outra é a dedicada pelos Eleatas a refutar o movimento. Pode caber nestas palavras: «É impossível que em oitocentos anos de tempo decorra um prazo de catorze minutos, porque antes é obrigatório que tenham passado sete, e antes de sete, três minutos e meio, e antes de três e meio, um minuto e três quartos, e as­sim infinitamente, de maneira que os catorze minutos nunca se cum­prem.» Russell rebate este argumento, afirmando a realidade e até vulga­ridade de números infinitos, mas que se dão de uma vez, por definição, e não como termo «final» de um processo de enumeração sem fim. Estes cálculos anormais de Russell são uma boa antecipação da eternidade, que também não se deixa definir pela enumeração das suas partes.
Nenhuma das várias eternidades que planearam os homens — a do nominalismo, a de Ireneu, a de Platão — é uma agregação mecânica do passado, do presente e do futuro. É uma coisa mais simples e mais mágica: é a simultaneidade desses tempos. O idioma comum e o dicioná­rio espantoso «dont chague édition fait regretter la précédente» parecem ignorá-lo, mas assim pensaram os metafísicos. «Os objectos da alma são sucessivos, agora Sócrates e depois um cavalo», leio no quinto livro das Enéadas, «sempre uma coisa isolada que se concebe e milhares que se perdem; mas a Inteligência Divina abarca juntamente todas as coisas. O passado está no seu presente, assim como também o futuro. Nada de­corre neste mundo, em que persistem todas as coisas, quietas na felicida­de da sua condição.»
Passo a considerar esta eternidade de que derivaram as subsequentes. É verdade que Platão não a inaugura — num livro especial, fala dos «an­tigos e sagrados filósofos» que o antecederam —, mas amplia e resume com brilho o que imaginaram os anteriores. Deussen compara-o ao cre­púsculo: luz apaixonada e final. Convergem nos seus livros todas as con­cepções gregas de eternidade quer rejeitadas, quer adornadas tragicamente.
Por isso o faço anteceder Ireneu, que ordena a segunda eternidade: a coroada pelas três diferentes, mas inextricáveis pessoas.
Diz Plotino com notório fervor: «Toda a coisa no céu inteligível também é céu, e aí a terra é céu, como também o são os animais, as plan­tas, os homens e o mar. Cada um revê-se nos outros. Não há nada nesse reino que não seja diáfano. Nada é impenetrável, nada é opaco e a luz encontra a luz. Todos estão em toda a parte, e tudo é tudo. Cada coisa é todas as coisas. O Sol é todas as estrelas, e cada estrela é todas as estrelas e o Sol. Ninguém anda ali como em terra estrangeira.» Este universo unânime, esta apoteose da assimilação e do intercâmbio, contudo, não é ainda a eternidade; é um céu limítrofe, não emancipado completamente do número e do espaço. À contemplação da eternidade, ao mundo das formas universais pretende exortar esta passagem do quinto livro: «Que os homens a quem maravilha este mundo — a sua capacidade, a sua be­leza, a ordem do seu movimento contínuo, os deuses manifestos ou invi­síveis que o percorrem, os demónios, árvores e animais — elevem o pen­samento a esta Realidade de que tudo é a cópia. Verão aí as formas inteligíveis, não com emprestada eternidade mas sim eternas, e verão também o seu capitão, a Inteligência pura, e a Sabedoria inalcançável, e a idade genuína de Cronos, cujo nome é a Plenitude. É nele que estão to­das as coisas imortais. Todos os intelectos, todos os deuses e todas as al­mas. Todos os lugares lhe são presentes, para onde irá? Está na ventura, para quê experimentar a mudança e a vicissitude? Não careceu ao princí­pio desse estado ganhando-o depois. Numa só eternidade as coisas não são suas: a eternidade que o tempo imita ao girar em torno da alma, sempre desertor de um passado, sempre cobiçoso de um porvir.»
As repetidas afirmações de pluralidade que fornecem os parágrafos anteriores, podem induzir-nos em erro. O universo ideal para que nos convida Plotino é menos propenso à variedade do que à plenitude; é um repertório selecto, que não tolera a repetição e o pleonasmo. É o imóvel e terrível museu dos arquétipos platónicos. Não sei se o viram olhos mortais (fora da intuição visionária ou do pesadelo) ou se o grego remo­to que o ideou o representou alguma vez, mas algo de museu pressinto nele: quieto, monstruoso e classificado... Trata-se de uma imaginação pessoal de que pode prescindir o leitor; do que não convém que prescin­da é de uma notícia geral desses arquétipos platónicos, ou causas primor­diais ou ideias, que povoam e compõem a eternidade.
É impossível aqui uma discussão prolixa do sistema platónico, mas não certas advertências de intenção propedêutica. Para nós, a última e
firme realidade das coisas é a matéria — os electrões giratórios que per­correm distâncias estelares na solidão dos átomos; para os capazes de platonizar, é a espécie, a forma. No terceiro livro das Enéadas, lemos que a matéria é irreal: é uma simples e vazia passividade que recebe as formas universais como as receberá um espelho; estas agitam-na e po­voam-na sem a alterar. A sua plenitude é precisamente a de um espelho, que simula estar cheio e está vazio; é um fantasma que nem sequer desa­parece, porque não tem nem a capacidade de cessar. O fundamental são as formas. Delas, repetindo Plotino, disse Pedro Malón de Chaide muito depois: «Faz Deus como se tivéssemos um selo oitavo de ouro que numa das partes tivesse um leão esculpido; noutra, um cavalo; noutra, uma águia, e assim por diante; e num bocado de cera imprimíssemos o leão; noutro, a águia; noutro, o cavalo; é certo que tudo o que está na cera es­tá no ouro, e não podemos imprimir senão o que lá tivermos esculpido. Mas há uma diferença, que é que a cera afinal é cera, e vale pouco; mas o ouro é ouro, e vale muito. Nas criaturas estão estas perfeições finitas e de pouco valor: em Deus são de ouro, são o próprio Deus.» Daqui po­demos inferir que a matéria não é nada.
Damos por errado este critério e até inconcebível, e apesar disso apli­camo-lo continuamente. Um capítulo de Schopenhauer não é o papel nas oficinas de Leipzig nem a impressão, nem as delicadezas e perfis da es­crita gótica, nem a enumeração dos sons que o compõem, nem sequer a opinião que temos dele; Miriam Hopkins é feita de Miriam Hopkins, não dos princípios nitrogenados ou minerais, hidratos de carbono, alca­lóides e gorduras neutras, que formam a substância transitória desse fino espectro de prata ou essência inteligível de Hollywood. Estas ilustrações ou sofismas de bom grado podem exortar-nos a tolerar a tese platónica. Vamos formulá-la assim: «Os indivíduos e as coisas existem enquanto participam da espécie que os inclui, que é a sua realidade permanente.» Vou buscar o exemplo mais favorável: o de um pássaro. O hábito dos bandos, a pequenez, a identidade de características, a antiga conexão com os dois crepúsculos, o do princípio dos dias e o do seu termo, a cir­cunstância de serem mais frequentes ao ouvido do que à vista — tudo is­to nos move a admitir o primado da espécie e a quase perfeita nulidade dos indivíduos. Keats, alheio ao erro, pode pensar que o rouxinol que o encanta é o mesmo que ouviu Ruth nos trigais de Belém de Judá; Stevenson eleva um só pássaro que consome os séculos: «o rouxinol devo­rador do tempo». Schopenhauer, o apaixonado e lúcido Schopenhauer, dá uma razão: a pura actualidade corporal em que vivem os animais, o seu desconhecimento da morte e das memórias. E acrescenta logo, não sem um sorriso: «Quem me ouvir assegurar que o gato cinzento que está a brincar no pátio é o mesmo que brincava e fazia travessuras há qui­nhentos anos, pensará de mim o que quiser, mas loucura` mais estranha é imaginar que fundamentalmente é outro.» E a seguir: «Destino e vida de leões requer a leonidade que, considerada no tempo, é um leão imortal que se mantém por meio da infinita reposição dos indivíduos, cuja gera­ção e cuja morte formam o pulso desta imperecível figura.» E antes: «Uma infinita duração precedeu o meu nascimento; o que fui eu entre­tanto? Metafisicamente, poderia talvez responder-me: "Eu fui sempre eu; quer dizer, os outros que disseram eu durante esse tempo todo, não eram senão eu”»
Presumo que a eterna Leonidade pode ser aprovada pelo meu leitor, que sentirá um alívio majestoso perante esse único Leão, multiplicado nos espelhos do tempo. Do conceito de eterna Humanidade não espero o mesmo: sei que o nosso eu o rejeita, e que prefere derramá-lo sem me­do no eu dos outros. Mau sinal; formas universais muito mais árduas nos propõe Platão. Por exemplo, a Mesidade, ou Mesa Inteligível que es­tá nos céus: arquétipo quadrúpede que perseguem, condenados ao deva­neio e à frustração, todos os marceneiros do mundo. (Não posso negá-la completamente: sem uma mesa ideal, nunca poderíamos ter chegado a mesas concretas.) Por exemplo, a Triangularidade: eminente polígono de de três lados que não está no espaço e que não quer rebaixar-se à condi­ção de equilátero, escaleno ou isósceles. (Também não o repudio; é o dos manuais de geometria.) Por exemplo: a Necessidade, a Razão, a Pre­terição, a Relação, a Consideração, o Tamanho, a Ordem, a Lentidão, a Posição, a Declaração, a Desordem. Destas comodidades do pensamen­to elevadas a formas já não sei o que julgar; penso que nenhum homem as poderá intuir sem o auxílio da morte, da febre, ou da loucura. Já me esquecia de outro arquétipo que os compreende a todos e os exalta: a Eternidade, cuja fragmentada cópia é o tempo.
Ignoro se o meu leitor precisa de argumentos para descrer da doutrina platónica. Posso fornecer-lhe muitos: um, a incompatível agregação de termos genéricos e de termos abstractos que coabitam sans gêne na dotação do mundo arquétipo; outro, a reserva do seu inventor sobre o procedimento que usam as coisas para participar nas formas universais; outro, a conjectura de que esses mesmos arquétipos assépticos padecem de mistura e de variedade. Não são irresolúveis: são tão confusos como as criaturas do tempo. Fabricados à imagem das criaturas, repetem essas próprias anomalias que pretendem resolver. A Leonidade, digamos, co­mo prescindiria da Soberba e da Rubidez, da Jubidade e da Garridade? Para esta pergunta não há resposta nem pode haver: não esperemos do termo leonidade uma virtude muito superior à que tem esta palavra sem o sufixo[3].
Volto à eternidade de Plotino. O quinto livro das Enéadas inclui um inventário muito geral das peças que a compõem. A Justiça lá está, assim como os Números (até qual?) e as Virtudes e os Actos e o Movimento, mas não os erros e os estragos, que são doenças de uma matéria em que se modelou uma Forma. Não é enquanto melodia, mas sim enquanto é Harmonia e é Ritmo que lá está a Música. Da patologia e da agricultura não há arquétipos, porque não são precisos. Ficam excluídas igualmente a fazenda, a estratégia, a retórica e a arte de governar — embora, no tempo, derivem um pouco da Beleza e do Número. Não há indivíduos, não há uma forma primordial de Sócrates nem sequer de Homem Alto ou de Imperador; há, geralmente, o Homem. Em contrapartida, estão lá todas as figuras geométricas. Das cores só estão as primárias: não há Cinzento nem Púrpura, nem Verde nesta eternidade. Por ordem as­cendente, os seus mais antigos arquétipos são estes: a Diferença, a Igual­dade, a Moção, a Quietude e o Ser.
Examinámos uma eternidade que é mais pobre que o mundo. Resta ver como a adoptou a nossa Igreja e lhe confiou um caudal que é supe­rior ao que os anos transportam.


II

O melhor documento da primeira eternidade é o quinto livro das Enéadas; o da segunda ou cristã, o décimo primeiro livro das Confissões de Santo Agostinho. A primeira não se pode conceber fora da tese plató­nica; a segunda, sem o mistério profissional da Trindade e sem as discus­sões levantadas pela predestinação e pela reprovação. Quinhentas páginas in-fólio não esgotariam o tema: espero que estas duas ou três em oitavo não pareçam excessivas.
Pode afirmar-se, com suficiente margem de erro, que a «nossa» eter­nidade foi decretada poucos anos após a doença crónica intestinal que matou Marco Aurélio, e que o lugar desse vertiginoso mandado foi o desfiladeiro de Fourvière, que antes se chamou Forum vetus, e célebre agora pelo elevador e pela basílica. Apesar da autoridade de quem a or­denou — o bispo Ireneu —, esta eternidade coerciva foi muito mais que um vão parâmetro sacerdotal ou um luxo eclesiástico: foi uma resolução e foi uma arma. O Verbo é engendrado pelo Pai, o Espírito Santo é pro­duzido pelo Pai e pelo Verbo, os gnósticos costumavam inferir destas duas inegáveis operações que o Pai era anterior ao Verbo, e os dois ao Espírito. Esta inferência dissolvia a Trindade. Ireneu esclareceu que o duplo processo — geração do Filho pelo Pai, emissão do Espírito pelos dois — não aconteceu no tempo, mas sim esgota de uma vez o passado, o presente e o porvir. O esclarecimento prevaleceu e agora é dogma. As­sim foi promulgada a eternidade, antes apenas consentida na sombra de algum desautorizado texto platónico. A boa conexão e distinção das três hipóstases do Senhor, agora é um problema inverosímil, e esta futilidade parece contaminar a resposta; mas não há dúvidas da grandeza do resul­tado, pelo menos para alimentar a esperança: «Aeternitas est merum ho­die, est immediata et lucida friutio rerum infinitarum.» Nem da impor­tância emocional e polémica da Trindade.
Agora, os católicos laicos consideram-na um corpo colegiado infini­tamente correcto, mas também infinitamente aborrecido; os liberais um vão cão Cérbero teológico, uma superstição que os muitos avanços da República já se encarregaram de abolir. A Trindade, é claro, excede estas fórmulas. Imaginada toda de uma vez, a sua concepção de um pai, um fi­lho e um espectro, articulados num único organismo, parece um caso de teratologia intelectual, uma deformação que só o horror de um pesadelo conseguiu parir. O inferno é uma mera violência física, mas as três inex­tricáveis Pessoas implicam um horror intelectual, uma infinidade asfixia‑
da, enganadora, como de contrários espelhos. Dante pretendeu deno­tá-las com o signo de uma sobreposição de círculos diáfanos, de diferente cor; Donne, pelo de complicadas serpentes, graciosas e indisso­lúveis. «Toto coruscat trinitas mysterio», escreveu São Paulino; «Brilha no pleno mistério da Trindade».
Desligada do conceito de redenção, a distinção das três pessoas numa tem de parecer arbitrária. Considerada como uma necessidade da fé, o seu mistério fundamental não se atenua, mas sobressaem a sua intenção e o seu emprego. Entendemos que renunciar à Trindade — à Dualidade, pelo menos, é fazer de Jesus um delegado ocasional do Senhor, um aci­dente da história, e não o auditor imorredouro, contínuo, da nossa devo­ção. Se o filho não for também a redenção não é obra directa divina; se não for eterno, também não o será o sacrifício de se ter rebaixado à con­dição de homem e ter morrido na Cruz. «Nada menos que uma infinita excelência pôde satisfazer por uma alma perdida para infinitas idades», insistiu Jeremias Taylor. Assim se pode explicar o dogma, embora os conceitos da geração de um Filho pelo Pai e do seguimento do Espírito pelos dois continuem a insinuar uma prioridade, sem contar com a sua culpada condição de simples metáforas. A teologia, empenhada em dife­renciá-las, resolve que não há motivo para confusões, visto que o resul­tado de uma é o Filho e da outra o Espírito. Geração eterna do Filho, procissão eterna do Espírito, é a soberba decisão de Ireneu: invenção de um acto sem tempo, de um mutilado zeitloses Zeitwort, que podemos desdenhar ou venerar, mas não discutir. Assim se propôs Ireneu salvar o monstro e conseguiu-o. Sabemos que era inimigo dos filósofos; apode­rar-se de uma das suas armas e voltá-la contra eles, deve ter-lhe causado um belicoso prazer.
Para o cristão, o primeiro segundo do tempo coincide com o primeiro segundo da Criação — facto que nos poupa o espectáculo (reconstruído re­centemente por Valéry) de um Deus ocioso que vai dobando séculos er­rantes na eternidade «anterior». Emanuel Swedenborg (Vera Christiana Religio, 1771) viu num confim do mundo espiritual uma estátua alucina­tória pela qual se imaginam devorados todos os «que deliberam insensata e esterilmente sobre a condição do Senhor antes de fazer o Mundo».
Desde que Ireneu a inaugurou, a eternidade cristã começou a diferir da alexandrina. Sendo ao princípio um mundo à parte, acomodou-se a ser um dos dezanove atributos da mente de Deus. Entregues à veneração popular, os arquétipos ofereciam o perigo de se transformarem em divin­dades ou em anjos; por conseguinte, não negou a sua realidade — sem­pre maior que a das simples criaturas —, mas foram reduzidos a ideias eternas no Verbo fazedor. A este conceito dos universalia ante res veio parar Alberto Magno: considera-os eternos e anteriores às coisas da Criação, mas só à maneira de inspirações e formas. Trata muito bem de separá-lo s dos universalia in rebus, que são as mesmas concepções divi­nas já concretizadas variamente no tempo, e — sobretudo — dos univer­salia postres, que são as concepções redescobertas pelo pensamento indu­tivo. As temporais distinguem-se das divinas pelo facto de carecerem da eficácia criadora, mas não noutra coisa: a suspeita de que as categorias de Deus podem não ser precisamente as do latim não cabe na escolástica... Mas advirto que me adianto.
Os manuais de teologia não se detêm com dedicação especial na eter­nidade. Reduzem-se a prevenir que é a intuição contemporânea e total de todas as fracções do tempo, e a fatigar as Escrituras hebraicas depois de fraudulentas confirmações, onde parece que o Espírito Santo diz mui­to mal o que diz bem o comentador. Costumam agitar com esse propó­sito esta declaração de ilustre desdém ou de mera longevidade: «Um dia perante o Senhor é como mil anos, e mil anos são como um dia», ou as grandes palavras que ouviu Moisés e que são o nome de Deus: «Sou Aquele que Sou», ou as que ouviu São João, o Teólogo, em Patmos, an­tes e depois do mar de cristal e da besta de cor escarlate e das aves que comem carne de capitães: «Eu sou o A e o Z, o princípio e o fim[4].» Cos­tumam copiar também esta definição de Boécio (concebida no cárcere, porventura em vésperas de morrer pela espada): «Aeternitas est intermi­nabilis vitae tota et perfecta possessio», e que me agrada mais na quase voluptuosa repetição de Hans Lassen Martensen: «Aeternitas est merum hodie, est immediata et lucida fruitio rerum infinitarum.» Em contrapar­tida, parecem desprezar o obscuro juramento do anjo que estava de pé sobre o mar e sobre a terra (Revelação, X, 6): «e jurou por Aquele que viverá para sempre, que criou o céu e as coisas que nele estão, e a terra e as coisas que nela estão, e o mar e as coisas que nele estão, que o tempo deixará de ser». É verdade que o tempo neste versículo deve equivaler a «demora».
A eternidade ficou como atributo da ilimitada mente de Deus, e sa­be-se muito bem que gerações de teólogos têm vindo a trabalhar essa mente, à sua imagem e semelhança. Não há nenhum estímulo tão vivo como o debate da predestinação ab aeterno. Quatrocentos anos depois da Cruz, o frade inglês Pelágio incorreu no escândalo de pensar que os inocentes que morrem sem o baptismo alcançam a glória[5]. Agostinho, bispo de Hipona, refutou-o com uma indignação que os seus editores aclamam. Anotou as heresias nesta doutrina, aborrecida dos justos e dos mártires: a sua negação de que no homem Adão já pecámos e perecemos todos os homens, o seu esquecimento abominável de que esta morte se transmite de pai para filho pela geração carnal, o seu desprezo do san­grento suor, da agonia sobrenatural e do grito de Quem morreu na Cruz, a sua repulsa dos secretos favores do Espírito Santo, a sua restri­ção da liberdade do Senhor. O britânico temera a ousadia de invocar a justiça; o Santo — sempre sensacional e forense — concede que, de acordo com a justiça, todos os homens merecemos o fogo sem perdão, mas que Deus determinou salvar alguns, «segundo o seu arbítrio», ou como diria Calvino, muito depois, e não sem uma certa brutalidade: «porque sim» («guia voluit»). Eles são os predestinados. A hipocrisia ou o pudor dos teólogos reservou o uso desta palavra para os predestinados ao céu. Predestinados ao tormento não pode haver: é verdade que os não favorecidos passam ao fogo eterno, mas trata-se de uma preterição do Senhor, não de um acto especial... Este recurso renovou a concepção da eternidade.
Gerações de homens idolátricos haviam habitado a Terra, sem oca­sião de rejeitar ou abraçar a palavra de Deus; era tão insolente imaginar que pudessem salvar-se sem esse meio como negar que alguns dos seus varões, de famosa virtude, seriam excluídos da glória. (Zuínglio, 1523, declarou a sua esperança pessoal de compartilhar o céu com Hércules, com Teseu, com Sócrates, com Aristides, com Aristóteles e com Séneca.) Uma amplificação do nono atributo do Senhor (que é o de omnisciência) bastou para esconjurar a dificuldade. Promulgou-se que esta implicava o conhecimento de todas as coisas: quer dizer, não só das reais, mas das possíveis também. Procurou-se um lugar nas Escrituras que permitisse este complemento infinito, e encontraram-se dois: um, o do Primeiro Li­vro dos Reis em que o Senhor diz a David que os homens de Kenlah irão entregá-lo se ele não se for embora da cidade, e ele vai; o outro, o do Evangelho segundo São Mateus, que impreca duas cidades: «Ai de ti, Karazin! Ai de ti, Betsaida! porque se em Tiro e em Sídon se houvessem feito as maravilhas que em vós se fizeram, há muito tempo que se teriam transformado em mar e em cinza.» Com este repentino apoio, puderam ingressar na eternidade os modos potenciais do verbo: Hércules convive no céu com Ulrich Zuínglio porque Deus sabe que teria observado o ano eclesiástico, a Hidra de Lema fica relegada para as trevas externas por­que lhe consta que rejeitaria o baptismo. Nós percebemos os factos reais e imaginamos os possíveis (e os futuros); no Senhor não tem lugar esta distinção, que pertence ao desconhecimento e ao tempo. A sua eternida­de regista de uma vez (uno intelligendi actu) não só todos os instantes deste repleto mundo como também os que teriam lugar se o mais eva­nescente deles se alterasse — e os impossíveis, também. A sua eternidade combinatória e pontual é muito mais copiosa que o universo.
Ao contrário das eternidades platónicas, cujo aspecto principal é a in­sipidez, esta corre o risco de se assemelhar às últimas páginas do Ulisses, e até ao capítulo anterior, o do enorme interrogatório. Um majestoso es­crúpulo de Agostinho moderou essa prolixidade. A sua doutrina, até mesmo verbalmente, rejeita a condenação; o Senhor fixa-se nos eleitos e passa por alto os réprobos. Sabe tudo, mas prefere demorar a sua aten­ção nas vidas virtuosas. João Escoto Erígeno, mestre palatino de Carlos, o Calvo, deformou gloriosamente esta ideia. Predicou um Deus indeter­minável; ensinou um ror de arquétipos platónicos; ensinou um Deus que não percebe o pecado nem as formas do mal; ensinou a deificação, a re­conversão final das criaturas (inclusivamente o tempo e o demónio) à unidade primeira de Deus. «Divina bonitas consummabit malitiam, ae­terna vita absorbebit mortem, beatitudo miseriam.» Esta mesclada eter­nidade (que ao contrário das eternidades platónicas inclui os destinos in­dividuais; que ao contrário da instituição ortodoxa rejeita toda a imperfeição e miséria) foi condenada pelo sínodo de Valência e pelo de Langres. De divisione naturae, libri V, a controversa obra que a pregava, ardeu na fogueira pública. Acertada medida que despertou o favor dos bibliófilos, e permitiu que o livro do Erígeno chegasse aos nossos tempos.
O universo requer a eternidade. Os teólogos não ignoram que se a atenção do Senhor se desviasse um só segundo da minha mão direita que escreve, esta recairia no nada, como se a fulminasse um fogo sem lua. Por isso afirmam que a conservação deste mundo é uma perpétua criação e que os verbos conservar e criar, tão inimizados aqui, são sinónimos no Céu.


III

Temos até aqui, na sua ordem cronológica, a história geral da eterni­dade. Das eternidades, melhor dizendo, visto que o desejo humano so­nhou dois sonhos sucessivos e hostis com esse nome: um, o realista, que anseia com estranho amor os quietos arquétipos das criaturas; outro, o nominalista, que nega a verdade dos arquétipos e pretende congregar num segundo os pormenores do universo. Aquele baseia-se no realismo, doutrina tão afastada do nosso ser que descreio de todas as interpreta­ções, inclusivamente da minha; este no que determina o seu conteúdo, o nominalismo, que afirma a verdade dos indivíduos e o convencional dos géneros. Agora, semelhantes ao espontâneo e palerma prosista da comé­dia, todos fazemos nominalismo sans le savoir: é como uma premissa ge­ral do nosso pensamento, um axioma adquirido. Daí a inutilidade de co­mentá-lo.
Temos até aqui, na sua ordem cronológica, o desenvolvimento deba­tido e curial da eternidade. Conceberam-na homens remotos, homens barbudos e mitrados, publicamente para confundir heresias e para reabi­litar a distinção das três pessoas numa, secretamente para deter de qual­quer modo o decorrer das horas. «Viver é perder tempo: nada podemos recuperar nem conservar senão sob a forma de eternidade», leio no espa­nhol emersonizado Jorge Santayana. Ao qual basta justapor aquela terrí­vel passagem de Lucrécio, sobre a falácia do coito: «Como o sequioso que no sonho queria beber, e esgota formas de água que não se sacia e morre abrasado pela sede no meio de um rio: assim Vénus engana os amantes com simulacros, e a visão de um corpo não lhes dá fartura, e na­da podem soltar ou guardar, embora as mãos indecisas e mútuas percor­ram todo o corpo. Por fim, quando nos corpos há presságio de venturas e Vénus está a ponto de semear os campos da mulher, os amantes aper­tam-se com ansiedade, dente amoroso contra dente; absolutamente em vão, dado que não chegam a perder-se no outro nem a ser um mesmo ser.» Os arquétipos e a eternidade — duas palavras — prometem posses­sões mais firmes. A verdade é que a sucessão é uma intolerável miséria e que os apetites magnânimos cobiçam todos os minutos do tempo e toda a variedade do espaço.
Sabe-se que a identidade pessoal reside na memória e que a anulação desta faculdade implica a idiotia. Pode-se pensar o mesmo do universo. Sem uma eternidade, sem um espelho delicado e secreto do que passou pelas almas, a história universal é tempo perdido, e nela a nossa história pessoal — que nos envaidece incomodamente. Não basta o disco gramo-fónico de Berliner ou o perspícuo cinematógrafo, meras imagens de ima­gens, ídolos de outros ídolos. A eternidade é uma invenção mais copiosa. É verdade que não é concebível, mas o humilde tempo sucessivo também não o é. Negar a eternidade, supor a vasta aniquilação dos anos carrega­dos de cidades, de rios e de júbilos, não é menos incrível do que imagi­nar o seu total salvamento.
Como foi incoada a eternidade? Santo Agostinho ignora o problema, mas assinala um facto que parece permitir uma solução: os elementos de passado e de futuro que há em todo o presente. Alega um caso determi­nado: a rememoração de um poema. «Antes de começar, o poema está na minha antecipação; assim que o acabei, na minha memória; mas enquanto o digo, está a estender-se na memória, pelo que tenho dito; na antecipação, pelo que me falta dizer. O que sucede com a totalidade do poema, sucede com cada verso e com cada sílaba. Digo o mesmo da ac­ção mais longa de que faz parte o poema, e do destino individual, que se compõe de uma série de acções, e da humanidade, que é uma série de destinos individuais.» Esta verificação da íntima ligação dos diversos tempos do tempo, no entanto, inclui a sucessão, facto que não condiz com um modelo de unânime eternidade.
Penso que esse modelo foi a nostalgia. O homem enternecido e des­terrado que rememora possibilidades felizes, vê-as sub specie aeternitatis, com o esquecimento total de que a execução de uma delas exclui ou adia as outras. Na paixão, a recordação inclina-se para o intemporal. Reuni­mos as venturas de um passado numa única imagem; os poentes diferen­temente vermelhos que vejo em cada tarde serão na lembrança um único poente. Com a previsão passa-se a mesma coisa: podem conviver sem obstáculos as mais incompatíveis esperanças. Por outras palavras: o estilo do desejo é a eternidade (É verosímil que esteja na insinuação do eterno — da immediata et lucida fruitio rerum infinitarum — a causa do agrado especial que as enumerações provocam.)


IV


Só me resta referir ao leitor a minha teoria pessoal da eternidade. uma pobre eternidade já sem Deus, e ainda sem outro possuidor e sem arquétipos. Formulei-a no livro Idioma dos Argentinos, em 1928. Passo a transcrever o que então publiquei; a página intitulava-se «Sentir-se na morte».
«Desejo registar aqui uma experiência que tive há umas noites: ninharia demasiado evanescente e estática para lhe chamar aventura; dema­siado irrazoável e sentimental para pensamento. Trata-se de uma cena e da sua palavra: palavra já antes dita por mim, mas não vivida até então com total dedicação do meu eu. Passo a historiá-la, com os acidentes de tempo e de lugar que a declararam.
Rememoro-a assim. Na tarde que antecedeu essa noite, estive em Barracas: localidade que não visito por hábito e cuja distância das que depois percorri já deu um estranho sabor a esse dia. Nessa noite não ti­nha destino algum; como estava bom tempo saí para caminhar e recor­dar, depois de jantar. Não quis determinar rumo a essa caminhada; pro­curei uma máxima latitude de probabilidades para não cansar a expectativa com a obrigatória antevisão de uma única delas. Realizei ape­nas na medida do possível isso a que chamam caminhar ao acaso; aceitei, sem outro consciente preconceito para além do de olhar de soslaio as avenidas ou ruas largas, os mais obscuros convites da casualidade. Con­tudo, uma espécie de gravitação familiar afastou-me para uns bairros, de cujo nome quero sempre lembrar-me e que exigem reverência ao meu peito. Não quero com isto significar o meu bairro, o preciso âmbito da infância, mas sim no entanto as suas misteriosas imediações; confim que possuí inteiro em palavras e pouco na realidade, vizinho e mitológico ao mesmo tempo. O reverso do conhecido, as suas costas são para mim es­sas ruas penúltimas, quase tão efectivamente ignoradas como os soterra­dos alicerces da nossa casa ou o nosso invísivel esqueleto. A marcha dei­xou-me numa esquina. Aspirei a noite, em sereníssimo ócio de pensar. A visão, nada complicada certamente, parecia simplificada pelo meu can­saço. Irrealizava-a a sua própria tipicidade. A rua era de casas baixas, e embora o seu primeiro significado fosse de pobreza, o segundo era certa­mente de ventura. Era do mais pobre e dos mais belo que havia. Nenhu­ma casa estava animada na rua; a figueira escurecia sobre um quintal; as cancelas — mais altas que as linhas estiradas das paredes — pareciam fei­tas da mesma substância que a noite. A vereda era escarpada sobre a rua; a rua era de barro elementar, barro da América ainda não conquistado. Ao fundo, a rua grande, já descampada, desmoronava-se para o Maldo­nado. Sobre a terra turva e caótica, uma cerca rosada parecia não hospe­dar a luz do luar, mas sim derramar uma luz íntima. Não haverá melhor maneira de definir a ternura que este tom rosado.
Fiquei a observar esta simplicidade. Pensei, com segurança, em voz alta: Isto é o mesmo de há trinta anos... Conjecturei esta data: época re­cente noutros países, mas já remota neste inconstante lado do mundo. Talvez cantasse um pássaro e senti por ele um carinho infantil, e de ta­manho de pássaro; mas o mais seguro é que neste já vertiginoso silêncio não houve outro ruído para além do também intemporal dos grilos. O fácil pensamento: «Estou em mil oitocentos e tantos» deixou de ser umas quantas aproximativas palavras e aprofundou-se até à realidade. Senti-me morto, senti-me percebedor abstracto do mundo: indefinido temor imbuído de ciência que é a melhor clareza da metafísica. Não acreditei, não, ter remontado as presumíveis águas do Tempo; antes me suspeitei possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebível pala­vra eternidade. Só depois consegui definir esta imaginação.
Escrevo-a, agora, assim: Esta pura representação de factos homo­géneos — noite em serenidade, ar límpido, cheiro provinciano da madressilva, barro fundamental — não simplesmente idêntica à que hou­ve nessa mesma esquina há tantos anos; sem parecenças nem repetições, é a mesma. O tempo, se pudermos intuir esta identidade é uma desilu­são: bastam para o desintegrar a indiferença e inseparabilidade de um momento do seu aparente ontem e de outro momento do seu aparente hoje.
É evidente que o número destes momentos humanos não é infinito. Os elementares — os de sofrimento físico e de gozo físico, os de aproxi­mação do sonho, os da audição de uma música, os de muita intensidade ou grande apatia — são mais impessoais ainda. Faço derivar de antemão esta conclusão: a vida é demasiado pobre para não ser também imortal. Mas nem sequer temos a segurança da nossa pobreza, visto que o tempo, facilmente refutável no sensitivo, não o é também no intelectual, de cuja essência parece inseparável o conceito de sucessão. Fique portanto em anedota emocional a vislumbrada ideia e na confessada irresolução desta folha de papel o momento verdadeiro de êxtase e a insinuação possível de eternidade de que essa noite não me foi avara.»
O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não tem culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinícius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si, mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir- a- ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram
[ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceita-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequena luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão nome de esperança.


Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do [labirinto

Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes
Os Comunistas

'(...) Enquanto isso sobem os homens pelo sistema solar... Deixam pegadas de sapatos na Lua... Tudo luta por mudanças, menos os velhos sistemas... A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais... Teias de aranha mais duras do que os ferros das máquinas... No entanto, há gente que acredita numa mudança, que tem posto em prática a mudança, que tem feito triunfar a mudança, que tem feito florescer a mudança... Caramba!... A primavera é inexorável!'

Pablo Neruda
O Povo ao poder

Quando nas praças s’eleva
Do Povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
De pé sobre a barrica
Desgrenhado, enorme, nu
Em Roma é catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kosshut.
A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor!
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem...nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deixai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.
A palavra! Vós roubais-la

Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu’infâmia!
Ai, velha Roma,
Ai cidade de Vendoma,
Ai mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.
Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.
No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhes os pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite “oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações”.
Mas embalde...
Que o direito
Não é pasto de punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! Não há muitos setembros,
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.
Pois bem!
Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.
Irmão da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! Soberba populaça,
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, ó povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.

Recife, 1864 - Castro Alves.
'(...) Que bem que importa, gente! Que bem que importa? Importância tem pra mim mas é minha vida e minha eficiência na vida contemporânea que vivo. Nessa garanto que sube representar um destino. É que esse destino era bem o meu tudo me está provando: uma consciência, uma segurança de mim que me deixa dormir bem, uma curiosidade faminta de mundos, uma alegria sem parada. E tudo isso: terra pra um jardim de cento e tantos amigos que até fazem me iludir: confundo amigos com bugalhos, dou bom-dia pra motorneiro, até-logo pra garçon, me rio pra todo o mundo e cá neste peito batido sei agüentar meus penares. Vida assim condena Deus e Deus condena? É possível que os mártires do mundo tenham pena do que evita o combate a dar... Porém o perdão existe, também pros que amaram por demais. Eu. '

Mário de Andrade
Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso! Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.”


Charles Baudelaire
Soneto LIX

Se nada é novo, e o que hoje existe
Sempre foi, por que falha a nossa mente
E, se esforçando por criar, insiste,
Parindo o mesmo filho novamente!
Que do passado houvesse uma mensagem,
Já com mais de quinhentas translações,
Mostrando em livro antigo a sua imagem
Quando a escrita mal tinha convenções!
Pr’eu ver o que então diria o mundo
Da maravilha dessa sua forma;
Se nós ou eles vamos mais ao fundo,
Ou se a revolução nada reforma.
Estou certo que os sábios do passado
A alvo bem pior tenham louvado.


William Shakespeare

12.11.07







clique nas fotos

9.11.07
























telefonista


o telefone não toca.
as horas permanecem vazias e secas.
todos os outros estão muito
satisfeitos.

parece que nunca mais acaba.

houve uma noite mais difícil.
precisava de ouvir uma voz.

liguei para a informação horária
e ouvi a sua voz
enquanto dizia:

“são onze e dez e dez segundos.
são onze e dez e vinte segundos.
são onze e dez e trinta segundos…”

depois ela disse-me que
eram:
“onze e dez e quarenta segundos.”

talvez me tenha salvo a vida
mas não tenho a certeza.
Charles Bukowski
falta de inspiração

calçar os sapatos,
desamarrar os cadarços
e já é uma poesia.















ainda escrevo pelo mesmo motivo que não tenho uma tatuagem. porque estou de passagem. porque banalizo as palavras em detrimento das funções mais elementares da existência. porque quero que guardem minhas lembranças e depois que leia-as para mim quando estiver em numa cama imóvel, de fralda geriátrica, com um tubo de ar na boca.. porque acredito no esquecimento e na renovação das fórmulas matemáticas. porque cansei de ser sexy e a calvice avança. porque não sou mais criança. porque quero guardar apenas a senha de um cofre cheio de papéis e outras senhas. porque acredito demais em mim pra me esquecer agora. que estou no meu melhor, poderia me congelar agora. porque acredito mais em mim quando me esqueço. porque quero morrer de idades imensas. porque acredito em tudo que me dizem. e porque gosto de ser assim.




8.11.07
















Rembrandt

Vinha ele. Passava por aqui raramente. Como nunca usara sua prerrogativa de morador do bairro para comentar algo cotidiano com nossos conhecidos sentíamos que tínhamos uma dívida com ele, que ele podia conversar e agente ia ouvir ao menos eu pensava assim. Mas ele nunca dizia nada, passava como se ninguém visse. Ninguém via mesmo, mas de tanto não ver, era assim algo desconhecido.

É que fui o primeiro da geração de crianças da nossa rua, éramos sete na minha época e víamos ele como uma interrogação ambulante que passava por alí, lógico que não sabíamos o que significava a palavra interrogação mas na prática era dono de grande parte do mistério do nosso pequeno mundo, até onde nossos olhos poderiam ver.

Vivia andando rápido, pensava longe quase falando baixo ou pensava em nada, olhando ora para baixo, ora ao alto como a contra gosto fosse encarar as pessoas, como se preferisse que fosse diferente alguma coisa, o certo é que não sabíamos nada sobre ele.

Nunca comentávamos com a nossa família, penso hoje, talvez porque ele era parte de um mundo que se passava do portão pra fora e era um dos únicos mistérios que tínhamos.

Quando entrei para o colegial já pegava ônibus no ponto lá perto de casa sozinho e com o tempo pela falta de assunto em uma rua completamente bucólica fui com o tempo obtendo um pouco de atenção dos mais velhos quando eles não tinham nada pra falar e o jovem mais velho que se mudava há sete anos pro final da rua me disse sobre ele e percebí que não éramos os primeiros a pensar sobre o que seria do cara da nossa rua.

De fato havia poucas novidades por alí e ao me falarem fui vendo que não éramos os primeiros a tentar descobrir, que ele já teve vários apelidos, mas que ele não sabia destes apelidos, dizem que ele emprestou um livro pro Antoniel perto da época do natal e perguntavam se tinha alguma coisa a ver com esta data, mas nunca mais também ele foi buscar. Antoniel era um adulto, amigo do meu pai, forte e ocupado e nunca preferíamos entrar no seu caminho portanto perguntar estaria descartado.

O fato é que como todos ele também ia ao mercado comprar coisas, ia sozinho como tudo que fazia, comprava estoques anteriormente planejados e ficava mais dois meses sem ir novamente. Tinha cara de fumante e um cheiro de madeira mas nunca comprava cigarros, dizia a menina do caixa que quase cresceu junto conosco. Pensamos nisso por um tempo, e depois de dois meses como uma primeira descoberta para a resolução de todas as perguntas ou um novo continente percebemos que era este o único ponto comum entre todas as pessoas, o mercado, ou a fome. Daí começamos a ter medo da guerra, talvez só ele saiba da hora de um confronto e fazia estoques aguardando o momento, pensamos nele abrindo uma lata de sardinha sob a luz de uma vela em um buncker debaixo da sua casa, todos nós escondendo das rajadas e só ele protegido. Nenhuma destas hipóteses se confirmava sendo que todo mês nunca chegava a guerra: ainda bem, pelo menos. E pela primeira vez descobrí o lado bom de estar errado.

Vieram as aulas e esquecemos por um longo tempo disso, mas quando tudo parecia estar acabado pescávamos conversas, umas aqui e outras alí e quando um sabia vinha contar aos outros no final do futebol quando estávamos cansados esperando a mãe gritar na janela a hora de tomar banho: Diziam que talvez ele seria um turco, que veio fugido da guerra, mas sabíamos que era primo segundo de Miguel e de Álvaro e sabemos que eles são lá do noroeste, então não poderia ser. Diziam que não pôde servir o exército que era filho único e que sua mãe morava no asilo, que foi o primeiro da rua a levantar uma antena da sua casa e todos víamos o alumínio acima lá como um objeto não identificado, pensamos até em contatos espaciais, ou talvez vampíricos ou mesmo com os outros parentes que também fugiram da guerra que talvez tenham ido pra Argentina ou Chile, algum país assim, longe, só que perto. Diziam que ele sabia falar outras línguas e de tanto falar com os estrangeiros, pela antena, talvez já tinha preferido esquecer o português. Dizia que foi o primeiro da rua a passar no vestibular, na época nem minha mãe sabia o que significava a palavra vestibular, o certo é que passou mais de três vezes e não terminou nenhum curso, mas que de tanto estudar que ficara louco, que não tinha com quem conversar, a não ser com os estrangeiros do seu rádio..

Estávamos tão mergulhados e já nem pensavámos no método e a invenção já superava qualquer coisa. Não me lembro mais quantas versões, até Judas ele já 'foi' em nossas cabeças, todas elas havia uma contradição. E por um momento, não me lembro quando, acabar de uma vez com tudo isso, era praticamente acabar com quase todo o mundo misterioso a que tínhamos acesso e o tempo a mais de aumentar a história para demorar um pouco mais de ir tomar o banho. Mesmo sem querer começamos a desconfiar entre nós mesmos sobre quem estaria mentindo um pouco mais mas isto nunca configurava um problema pois a cumplicidade era maior entre nós pelo interesse comum em brincar mais.

Nem me lembro desde quando vínhamos especulando todas as hipóteses e nunca nada, tudo isso já se tornara quase uma cultura da rua e não sei porque pensei pela primeira vez que talvez de alguma forma todos nós estivéssemos agindo errado este tempo todo, pois todas as versões progressivamente condenava-o mais e mais por não ser como a maioria das pessoas.

Se cada um de nós somos um ou mesmo se somos todos um só, também, em algum momento somos alguém que está só. Pensei sobre isso, que demorei perceber. Por um tempo esquecí até do ônibus, não pensei em nada e voltei a pensar. Me bateu uma tristeza sem motivo e me deu uma vontade de ficar calado, de não conversar com ninguém, de conversar comigo ou uma vontade de chorar, mas não chorei.



* ficcção.


7.11.07


açúcar e universo
bem, é tão simples
bem, e parece incrível
muito mais do que isso
como um dia de sorte
como nenhum outro dia
deitado, olhando pra cima
e a incrível vontade de voar





6.11.07


a impressão que tenho de você é que você sempre pensa no contrário, avesso ás regras entende todas elas apenas para não precisar pensar mais .. você caminha na rua escura pela calçada iluminada, você desconhece sua força e vive sorrindo, rindo de si mesmo .. não se importa e atravessa o mar sem ver






praticamente, crises literárias

Gosto das minhas crises literárias, até invento algumas para me refletir sobre o que eu escrevo, são tão mais fáceis de se ter.. Digo 'para me refletir' assim mesmo, e não 'para refletir' pois o que eu escrevo não sou eu diretamente mas o mundo que vejo pelos meus olhos e eu os vejo, e as pessoas que vêem me dizem o que é e eu me vejo no que outros vêem sobre o que eu ví. Como quem procura ver a nuca com dois espelhos. Diários, literatura ou mistérios? Leio alguns, alguns me lêem e somos basicamente os mesmos lendo uns aos outros como macaquinhos que catam piolhos entre si, como uma sociedade alternativa onde há tanto o incentivo mútuo quando a necessidade de incentivo pelo próximo, e a doce omissão sobre o que não gostou do outro. enfim, nada demais, morfina, e ao mesmo tempo sublime e espetacular. ..até brinco de escrever, brinco de dizer nada a perder, a regra da exceção, o drible da vaca, o milagre da flor, esconde-esconde.. sem culpa, sem fundo, sem moral, sem pedra fundamental. há quem ache que estou me abrindo, na verdade é o que eu vejo delas, escrevo elas e eu também no mesmo texto, não me abro sempre quanto parece ou me abro justamente quando acham que eu era outro. Me realizo nos leitores e por quem sabe da distância que é da primeira letra sobre o espaço em branco e a eternidade do clique do botão publicar. Nada de mais, nada além, sem grandes novidades sensacionalistas ou falsas perspectivas. Crises apenas na minha cabeça, nem é de verdade, e eu tentando reinventar a roda inclusive agora em confissões, sem culpa, posso até rascunhar o diário de alguns dias, desde que não se torne uma remota rotina.

Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele! - Mário Quintana