30.10.12

autocrítica

de acusador a réu confesso, posso não cumprir a pena à qual eu próprio me sentenciei sem cometer os crimes que cometi contra as minhas próprias leis.

desamor  (possíveis destinos da chuva e a anti-matéria)


sinto falta da sensação da eternidade
quando acordava de manhã e 
a chuva ainda estava do lado de fora,
época em que já não se contava o tempo

o mundo não acabava
e o amor era o fim,
pois tem fim quem existe
e só morre quem vive.
o que sinto quando não sinto,
e a inspiração se vai.
diversos versos tortos
e a rima não veio outra vez

procuro o sono de um coração sem sonho
que procura dormir à sua própria sombra
procuro uma veia que sangre
um sangue que corra até o seu leito

tanto a morte quanto a vida
tanto faz no caminho
em todo lugar distante
ser chegada ou partida

se o ponto final fosse o fim
e o início começo de mim,
não teria pra onde ir
pediria pra sair ou 
ficaria mesmo aqui.

23.10.12



existir, talvez sonhar

Acordar para o mundo, sonhar, abrir a porta. Durante os anos que se passaram a ausência de pensamento em todos os tempos nos faz pensar que continuamos os mesmos pedaços de humanidade a desfilar os mesmos defeitos na calçada do mundo. Estamos precisos ao duvidarmos da nossa única certeza. Uma existência que se baseia na própria falta de si mesmo, como se conseguíssemos não tentar decifrar a natureza e tentar fazer parte dela sem mudar. Impossível não notar um mundo que habita em nossas mãos, se é o mundo que nos muda enquanto acreditamos sermos os mesmos. Longe do nada, lugar comum, cada gota de orvalho recai sobre a essência existencial de cada ser humano, como se não dissesse nada ao falar de si mesmo, como se a estação de outrora fosse sempre primavera, assim como são as estações de um filme que se passa em lugar qualquer. Era o sol a girar, era a vida, o mesmo planeta terra de sempre, mas cada vez mais era outro e a cada rodada, translação rotação em torno de si mesmo e uma estranha vontade de existir como se não quisesse ser sempre o mesmo, mas sendo assim mesmo sempre a mudar todos os dias, se afirmando ao renegar a si mesmo como se nunca fosse o de antes que agora será pra sempre o que nunca mais irá ao lugar onde o nada não existe ainda. E como se fosse fácil soprar a existência sobre si mesmo, desfaz-se a roda-viva e o culto que se faz presente ao tentar ser exatamente o que nunca foi, o começo do futuro ou um fim em si mesmo. Esta frase não faz sentido, agora que o texto acabou. Pegue estas palavras e jogue-as na parede, o que escorrer é sangue. Existir, talvez sonhar.


meu pai, desde antes da chuva quando o juazeiro tem as folhas verdes e o umbuzeiro já aflorou, tem dias que começa mesmo sem a gente ver o amanhecer e vão passando às vezes sem que a gente perceba. penso por algum instante em não pensar em nada e mesmo sem perceber o mundo sabe que estou lá e onde não estarei jamais. que a passada que me leva, também leva o som leve dos pés descalços dos nossos ancestrais e se viver é caminhar uma estrada a cada dia, nunca chegaremos a lugar algum pois todos lugares são o mesmo universo aqui e em qualquer lugar agora, sempre e nunca, do início ao fim. pois se a única alternativa é caminhar, caminhando eu sigo o meu destino e me deixo levar sem sair do lugar.