
memórias da infância I
entre os antigos, as crianças eram miniadultos que não sabiam de nada. era assim que eu vivia, eles não me perguntavam nada, mas também não sabiam que eu sabia de tudo. eu pensava o tempo todo, eu não sabia mas era sobre economia, sociedades e culturas. eu via o mapa mundi pendurado na parede e ficava horas e horas navegando pelos mares, pelos lugares com nomes esquisitos pela Ásia e tentava imaginar como os gregos conviviam com os seus vizinhos turcos. eu pensava nos turcos pois eram os únicos estrangeiros que eu conhecia e eram vendedores de tecidos. eu pensava em deixar alguma coisa tipo uma folha de árvore no bolso da camisa de um dos turcos pra ver se ele levava essa folha pra Turquia, mas eu nunca ia saber. eu nunca cheguei perto deles, mas toda vez que eles estavam andando na rua minha tia dizia; olha os turcos, e eu olhava. eu pensava nos gregos pois era o que mais se falava no livro de desenhos da minha avó. eu nunca entendi porque se falava tanto nos gregos se foram os portugueses descobriram o Brasil, aliás acho que os protugueses fizeram tanta raiva aos brasileiros que tentamos nos vingar fazendo o livro da minha avó só com os gregos. os gregos devem ser pessoas gente boa, mas acho que não conversavam muito porque viviam o tempo todo só pensando. acho que deve ser legal ver pessoas que ficam o tempo todo pensando. pensar era a coisa que eu mais fazia..

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Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
- Mário Quintana